Li, com surpresa, a carta aberta do jornalista Leandro Fortes, publicada no site da revista CartaCapital e reproduzida nos blogs dos colegas Luís Nassif e Luiz Carlos Azenha, sobre a determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, de retirar do site da TV Câmara o programa “Comitê de Imprensa”, apresentado pelo jornalista Paulo José Cunha.
O programa, recuperado por Azenha e colocado no YouTube, tinha como convidados Leandro Fortes e o jornalista Jailton Carvalho, repórter de O Globo, e tratava do comportamento da mídia quanto à Operação Satiagraha, conduzida pelo delegado federal Protógenes Queiroz. Pois o presidente do STF mandou tirá-lo do site da Câmara. Assim, sem mais nem menos.
Nunca vi um magistrado adotar tal comportamento. O programa, como vocês devem imaginar, não tinha nenhuma agressão ao próprio Gilmar ou fazia considerações desrespeitosas à Justiça brasileira. Tratava apenas de mostrar os jogos de interesse, os riscos de manipulação por parte da imprensa ao pintar Protógenes como tresloucado e desmerecer o trabalho de Paulo Lacerda à frente da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), antes de ser afastado do cargo para tornar-se adido policial na Embaixada do Brasil em Portugal.
É simplesmente estarrecedor o que o presidente do STF fez. E, pior, foi a concordância do presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP). O programa, cuja audiência já havia sido contemplada com quatro reapresentações na TV Câmara, agora ganhará status de “debate cult”, com algumas milhares de pessoas procurando-o na internet. Se Gilmar Mendes queria que a opinião pública não tivesse acesso ao programa, sua decisão foi pior. Tornou-o objeto de discussões na blogosfera e chamou a atenção dos formadores de opinião para a censura imposta pelo chefe do Judiciário. Que lástima!
É hora de os jornalistas reagirem. Daqui a pouco, o presidente do STF manda jornalista calar a boca. Ele já fez isso. Inclusive comigo, há muitos anos, quando ele era advogado-geral da União e eu, repórter do Correio Braziliense.
Sei não, mas lembro assim de O ovo da serpente, filme do Ingmar Bergman, e o estranho silêncio pairando diante de evidências cada vez maiores do desequilíbrio do presidente do STF.
Eis a íntegra da carta de Leandro, abaixo:
Carta aberta aos jornalistas do Brasil
Por Leandro Fortes
No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.
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