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Há algumas semanas, a respeito da crise que a imprensa mundial enfrenta, tratei um pouco do tamanho do buraco e como a nossa mídia anda mal das pernas. O Observatório da Imprensa publicou, nesta segunda-feira, a transcrição da matéria da revista inglesa Economist, a mais conceituada e influente semanal do mundo, sobre a tempestade que atravessam os grandes conglomerados de mídia nos Estados Unidos e na Europa. O quadro é assustador. Aos interessados, a leitura é mais do que recomendada. É obrigatória.

O NEGÓCIO DA NOTÍCIA

No meio da tempestade

Não são apenas os jornais: grande parte da indústria de notícias estabekecida está se desintegrando. Mas a notícia é próspera

The Economist em 14/5/2009

Talvez o indício mais certo de que os jornais estão à beira do abismo seja o fato de que os políticos, por tantas vezes seus alvos, estejam começando a sentir pena deles. No dia 9 de maio, Barack Obama terminou um discurso, que até teve algo de cômico, com uma defesa sincera de empresas sob ataque. Comissões da Câmara dos Representantes e do Senado realizaram audiências sobre o assunto no mês passado. O senador John Kerry, de Massachusetts, chamou os jornais de “espécie em risco de extinção”.

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A capa do Caderno 2 do Estadão, com a entrevista de Gay Talese a Lúcia Guimarães. (Reprodução)

A capa do Caderno 2 do Estadão, com a entrevista de Gay Talese a Lúcia Guimarães. (Reprodução)

Manual do repórter

Em entrevista exclusiva, o americano Gay Talese, mestre do Novo Jornalismo, fala de seu livro Vida de Escritor, que chega ao País, e dos desafios da imprensa na era da internet

A townhouse branca num nobre quarteirão do East Side não chama atenção, mas poderia ser tombada – tanto pelo desfile de luminares que por lá passaram, nos últimos 50 anos, como pelo proprietário. Numa manhã adorável de primavera, abro o gracioso portão de ferro, subo as escadas e toco a campainha da porta de vidro que separa o público da outra porta com a inscrição “Talese”. Atrás de mim, Taís Moraes, jornalista-cinegrafista-editora, esconde o equipamento. Tememos uma reação rabugenta do anfitrião que estará inevitavelmente vestido como um dândi de outra era, num horário em que muitos colegas seus só deram conta de escovar os dentes.

O sorriso largo e o aperto de mão generoso, apesar da gripe suína, me encorajam a explicar que a trama é um pouco mais complexa. Além da entrevista, precisamos de foto e vídeo (para veicular trechos da conversa no portal do Estado na internet). Ele concorda sem hesitação e me oferece a escolha entre a belíssima sala de visitas, a sala de jantar ou o jardim de inverno; escolho a sala de visitas. Gay Talese, um dos pais do Novo Jornalismo, um nome que ele desdenha, gosta de conversar com anônimos, algo que transformou numa arte ao longo de sua obra – mas como todo bom contador de histórias, não perde a loquacidade ao revisitar as próprias memórias.

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Li, com surpresa, a carta aberta do jornalista Leandro Fortes, publicada no site da revista CartaCapital e reproduzida nos blogs dos colegas Luís Nassif e Luiz Carlos Azenha, sobre a determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, de retirar do site da TV Câmara o programa “Comitê de Imprensa”, apresentado pelo jornalista Paulo José Cunha.

O programa, recuperado por Azenha e colocado no YouTube, tinha como convidados Leandro Fortes e o jornalista Jailton Carvalho, repórter de O Globo, e tratava do comportamento da mídia quanto à Operação Satiagraha, conduzida pelo delegado federal Protógenes Queiroz. Pois o presidente do STF mandou tirá-lo do site da Câmara. Assim, sem mais nem menos.

Nunca vi um magistrado adotar tal comportamento. O programa, como vocês devem imaginar, não tinha nenhuma agressão ao próprio Gilmar ou fazia considerações desrespeitosas à Justiça brasileira. Tratava apenas de mostrar os jogos de interesse, os riscos de manipulação por parte da imprensa ao pintar Protógenes como tresloucado e desmerecer o trabalho de Paulo Lacerda à frente da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), antes de ser afastado do cargo para tornar-se adido policial na Embaixada do Brasil em Portugal.

É simplesmente estarrecedor o que o presidente do STF fez. E, pior, foi a concordância do presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP). O programa, cuja audiência já havia sido contemplada com quatro reapresentações na TV Câmara, agora ganhará status de “debate cult”, com algumas milhares de pessoas procurando-o na internet. Se Gilmar Mendes queria que a opinião pública não tivesse acesso ao programa, sua decisão foi pior. Tornou-o objeto de discussões na blogosfera e chamou a atenção dos formadores de opinião para a censura imposta pelo chefe do Judiciário. Que lástima!

É hora de os jornalistas reagirem. Daqui a pouco, o presidente do STF manda jornalista calar a boca. Ele já fez isso. Inclusive comigo, há muitos anos, quando ele era advogado-geral da União e eu, repórter do Correio Braziliense.

Sei não, mas lembro assim de O ovo da serpente, filme do Ingmar Bergman, e o estranho silêncio pairando diante de evidências cada vez maiores do desequilíbrio do presidente do STF.

Eis a íntegra da carta de Leandro, abaixo:

Carta aberta aos jornalistas do Brasil

Por Leandro Fortes

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

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No Observatório de Imprensa, o jornalista Luiz Weis provoca o leitor ao se deparar com o editorial da Folha de domingo sobre os 60 anos da declaração universal dos direitos do homem. Segundo o veterano jornalista, faltam aos jornais coragem para desafiar os leitores com reportagens mais profundas e menos razas, que obriguem todos a pensar.

Ele lembra que o editorialista amarrou conceitos quanto às diferenças culturais das sociedades para advertir que nem todas as afrontas aos direitos humanos são condenáveis, já que vislumbres de culturas diversas mostram reações adversas. Weis cita o caso da extirpação de clitóris das adolescentes em países muçulmanos, uma prática tolerada aos olhos dos fundamentalistas – e até estimulada.

Escreve Weis: “Numa reportagem, essa discussão alcançaria muito mais leitores e os desafiaria a percorrer o terreno acidentado do relativismo cultural. Jornalismo de idéias é isso aí”.

Lei o artigo, publicado abaixo:

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Matamos Eloá

* Olímpio Cruz Neto

Jornalista é um bicho pernicioso e um tanto quanto metido. Gosta de falar sobre tudo e tem sempre uma opinião a respeito de qualquer coisa. Ainda que não seja um especialista em absolutamente nada. Falo isso para lembrar que, todos os dias, jornalistas cometem erros. O mais grave aconteceu na semana que passou.

Em mais um capítulo dantesco da nossa era do “jornalentretenismo” (sic) ou do jornalismo de entretenimento, a mídia ultrapassou os limites éticos e escancarou como é ela uma especialista em promover espetáculos em vez de informação para o deleite da nossa sociedade.

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Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, acadêmico e autor do livro “Em Brasília, 19 horas”, publicou no Estadão um artigo sobre a discussão em torno da obrigatoriedade do diploma de jornalista, sob a análise do Supremo Tribunal Federal e alvo de protestos da categoria.

Escreve Bucci: “(…) sobre exigência do diploma, é bom que se saiba que, na prática, ela ajudou a elevar o padrão da profissão no Brasil. Pesa contra ela, no entanto, o fato de ter sido imposta pela ditadura militar (o decreto-lei é de 1969) e, agora, surge com força essa alegação de que ela agride princípios constitucionais, dúvida que só pode ser dirimida pelo Supremo”.

Segundo o jornalista, não é nessa formalidade “abraçada por interesses corporativos”, que se encontra o âmago do debate. “O que deve falar mais alto, nessa matéria, não é a defesa sindical de uma categoria, mas o direito à informação, de que todo cidadão é titular. Essa é a pedra de toque”, aponta. “O que se deve buscar não é o conforto dos que hoje estão empregados, mas o melhor sistema para assegurar qualidade à mediação do debate público”.

Vale a leitura deste artigo, cuja íntegra está publicada abaixo.

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Na arena de idéias que circulam no cyberespaço, há cada vez mais lugares para que obtusos e reacionários ocupem trincheiras na blogosfera a fim de destilar suas posições mais atrasadas e conservadoras, limando oportunidades para a troca de idéias, num ambiente civilizado e de respeito mútuo. Basta apenas abrir fogo contra “os petralhas”, “esquerdopatas” e quetais para se posicionar como um “intelectual”.

No Brasil, há algum tempo, ninguém tinha coragem de se assumir como um reacionário. Agora, não. Há os que se orgulham e se ufanam de detonar todos aqueles que têm coragem de discutir os males sociais do país, mostrar as contradições das políticas públicas, retratar as distorções no sistema de distribuição de renda e outras coisas. Nas trincheiras do esgoto, qualquer olhar que humanize a notícia, mostre a vida e todas as suas contradições, é visto como uma “deturpação marxista” (sic).

Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa, aborda este problema em um artigo publicado nesta terça-feira no site do OI. Segue o texto para quem quiser ler.

SIMPLIFICAÇÃO, SIMPLIFICAÇÕES

Uma boquinha para os “idiossincráticos”

Por Luciano Martins Costa em 2/9/2008
Do Observatório da Imprensa

Uma das táticas mais eficazes para se conseguir espaço na imprensa brasileira, e quem sabe até mesmo uma boquinha de colaborador permanente, com direito ao seu próprio blog, é fazer a encenação da idiossincrasia. Mas, embora possa parecer fácil, é tarefa para pessoas talentosas.

Primeiro, e basicamente, é preciso vocação e tirocínio para identificar onde o conservadorismo e a arrogância da imprensa podem ser lustrados a ponto de fazê-la parecer moderna. Pós-moderna, como se dizia na década passada. Contemporânea, como se diz hoje.

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Professor de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré abordou, no Observatório da Imprensa, um dos grandes embates atuais que está ocorrendo na imprensa brasileira. Trata-se da necessidade do diploma para o exercício da profissão, cuja luta vem sendo empreendida pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Sodré também sai em defesa do diploma, argumentando que a exigência é uma necessidade para a própria sobrevivência da democracia e da sociedade. “Informação não é mero produto, nem serviço: é o próprio solo da sociedade em que vivemos, é o campo onde joga o cidadão. Se a garantia dessa formação adequada se espelha hoje no diploma, viva o diploma”, escreve. Abaixo, a íntegra do artigo.

DIPLOMA DE JORNALISMO
A necessidade da formação universitária

Muniz Sodré
No Observatório da Imprensa, em 5 de agosto de 2008

Em fevereiro de 2007, a Newspaper Association of America anunciou, durante sua convenção anual em Las Vegas, o lançamento de uma campanha nacional para incutir no público leitor a idéia de que o jornal do futuro será uma “multiplataforma de informação”, o que implica, na prática, a junção empresarial e cultural do papel com a web. Daí, slogans do tipo “a internet é a melhor coisa que poderia acontecer aos jornais”.

Mas será essa também a melhor coisa que poderia acontecer aos jornalistas?

Esta questão tem alguma pertinência para o atual debate sobre a exigência de diploma universitário.

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Mais um artigo pertinente da jornalista Maria Inês Nassif, editora de Opinião do jornal Valor Econômico sobre os novos tempos em que vivemos, em que notícia tem um valor que transcende seu papel informativo no mundo corporativo e de negócios, ganhando peso para especulações de toda sorte, inclusive financeira.

Escreve Maria Inês: “A informação hoje é um dado de qualquer movimento especulativo – as mesas de operação precisam da informação assim como do dinheiro para especular. Simultaneamente, os meios de comunicação, enquanto investiam numa rápida transformação tecnológica, fizeram do jornalista um ‘apertador de parafusos’.

Abaixo, a íntegra do artigo, publicado na edição de hoje do Valor:

De boas intenções o inferno está cheio

Maria Inês Nassif

Para quem opera diariamente na linha de produção dos meios de comunicação, é cada vez mais complicado entender o alcance da informação, isto é, a função que ela exerce num mundo globalizado, onde invade todas as áreas do conhecimento, é parte do processo de acumulação e, ao mesmo tempo e contraditoriamente, é cada vez mais compartimentada. De qualquer forma, no processo de produção de informação, o que é menos relevante é a intenção daquele que produz a notícia. O que importa é a função que ele exerce naquele momento. E aí, de boas intenções o inferno está cheio.

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Ainda não assisti ao filme “Arquivo X – Eu quero acreditar”, que está nos cinemas. Sou um grande fã da série, que tinha como protagonistas Mulder e Scully, os agentes do FBI que investigam casos bizarros, abduções, ETs e que lutavam contra a conspiração governamental de ocultação da “verdade”. Pela crítica publicada nesta sexta-feira na Folha (mais abaixo), o filme é uma bomba. A conferir.

Acima, o vídeo promocional da música “Mulder & Scully” do grupo inglês Catatonia, um dos expoentes do Britpop, sucesso nos velhos pubs londrinos. A música é um clássico, embora pouco conhecida no Brasil, e integra o disco “International Velvet”, cujas vendas ultrapassaram a marca dos 900 mil discos vendidos no agora longínquo ano de 1998.

Abaixo, a crítica da Folha.

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