O antropólogo Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da Funai e um dos maiores indigenistas do país, traz uma grave denúncia em seu blog. Ele acusa a missão religiosa Jocum – Jovens com uma missão de divulgar um filme pesado, horroroso, que está sendo veiculado no Youtube. O filme mostra índios enterrando uma criança viva. A comunidade Zuruahá vive às margens do rio Purus, no Amazonas. E, de acordo com Mércio, vem sendo assediada por missões religiosas desde os anos 70, quando foram feitos os primeiros contatos pela Funai. A missão religiosa Jocum é americana e tem filial no Brasil.
“Nunca imaginei que tivesse que apresentar neste Blog o filme abaixo”, observa Mércio. “Apresento-o com o sentimento do dever de fazer uma denúncia para a Polícia Federal, o Ministério da Justiça, a Secretaria de Direitos Humanos, a Funai, o Supremo Tribunal Federal e todas as instâncias judiciais, jurídicas e éticas do BRASIL. E todos os brasileiros”.
“Vejam o filme com o coração na mão, e façam o certo. Denunciem os autores e exijam a presença do Estado brasileiro. Não pode ser por uma Funasa despreparada, nem por uma Funai sem alma”, escreve o antropólogo.
Ele observa que não é possível saber se o fato filmado ocorreu de fato ou é apenas uma encenação. Mas aponta: “Mesmo que não tenha sido um fato verdadeiro, o que esperamos, a encenação é criminosa. Os autores do filmes têm que processados e os culpados punidos rigorosamente”.
Detalhe. O filme sobre o infanticídio está sendo “promovido” como uma denúncia no site Hakani. O caso é colocado como uma daquelas famosas campanhas para arrecadação de recursos. O site é bilingüe e ainda traz uma sinopse para o caso, que está reproduzida abaixo.
Hakani, enterrada viva. A história de uma sobrevivente.
“Ela foi enterrada viva porque seu povo achava que ela não tinha alma. Foi desenterrada por seu irmão no último momento. Depois disso, foi obrigada a viver banida de sua tribo por três longos anos até que a enfermidade e a rejeição a levaram mais uma vez para à beira da morte…
Esta é a história de Hakani, uma das centenas de crianças destinadas a morrer a cada ano entre os mais de 200 povos indígenas brasileiros. Deficiência física ou mental, ser gêmeo ou trigêmeo, nascer de uma relação extra-conjugal – todas essas são consideradas razões válidas para se tirar a vida e de uma criança.
Um número crescente de indígenas estão se levantando para combater essa prática. Mas quando eles procuram ajuda de algumas autoridades brasileiras, eles ouvem que as leis nacionais e internacionais não se aplicam às suas crianças, e que preservar a cultura é mais importante que preservar vidas individuais. Essas atitudes vão claramente contra a Constituição Brasileira e contra a legislação internacional, que declaram que os direitos da criança jamais podem ser sacrificados pelo bem do grupo.
Apresentando sobreviventes do infanticídio, assim como aqueles que os resgataram, Hakani é um documentário dramático que conta a história verdadeira da jornada de uma menina em busca da liberdade e a luta de um povo para encontrar uma voz – uma voz pela vida.”
Velho, esse blog está bom demais. abs
Pelo que eu sei, esse documentário-denuncia foi oferecido de graça para a Rede Globo e recusado, não há interesse em divulgar o que o governo Lula e FUNAI não estão fazendo para acabar com o infanticídio de crianças indigénas no Brasil. Índio vota?
Estou indignado com a indignação do Sr. Mércio e de todos que concordam com ele. Como tal, também apresento uma COBRANÇA para a Polícia Federal, o Ministério da Justiça, a Secretaria de Direitos Humanos, a Funai, o Supremo Tribunal Federal e todas as instâncias judiciais, jurídicas e éticas do BRASIL, para que sejam investigadas as responsabilidades daqueles que, INSTITUÍDOS COMO AUTORIDADES BRASILEIRAS, permitiram e/ou foram omissos no assassinato de diversas crianças , a título de respeito às culturas e tradições indígenas.
NADA ESTÁ ACIMA DA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA, DA LEGISLAÇÃO VIGENTE E DO DIREITO A VIDA.
Esperamos que o Congresso Nacional não se omita ao assunto e promulgue a Lei Muwaji, contra o assinato de crianças inocentes, por terem nascidas especiais, gêmeas ou do sexo feminino.
Convoco a todos quanto se indignaram com o caso do assinato da Menina Isabela e clamaram por justiça, QUE SE POSICIONEM também CONTRA O ASSASSINATO DE CRIANÇAS INDÍGENAS INOCENTES. Independente de raça, côr e credo, todos temos direito a vida, e os culpados e omissos pelos assassinatos de crianças indígenas precisam ser julgados na forma da Lei. O FILME RETRATA INFELIZMENTE UMA REALIDADE DURA DE SE VER NO SÉCULO XXI. Para que o BRASIL ocupe o lugar almejado de destaque na ONU é preciso ter as mãos limpas do sangue desses inocentes, retratado com propriedade no filme produzido pela JOCUM e outras organizações associadas. Indignar-se com essa denúncia é concordar e colocar-se no mesmo nível de quem mata deliberadamente, ou por opção, ou por tradição, ou ainda por medo de vir a tona o que poderia ter sido feito no passado para evitar essas mortes e não foi realizado.
Quanto a Rede Globo, não me admira sua omissão, pois no passado exibiu matéria no Fantástico, narrada pelo Líder BBB Pedro Bial, contra missionários que levaram crianças indígenas doentes ao hospital, pois seriam mortas pelos próprios pais. A emissora veiculou a reportagem como seqüestro de crianças indígenas. Perdeu pra mim o que nunca teve. Credibilidade!
1 de Julho de 2008 13:02
Caríssimo prof Olimpio
É estarrecedor, realmente. Em alguns momentos, no entanto, ele me pareceu inverossímel.
De qq forma, temos – os brasileiros dignos – que tomar providências junto ao governo federal e ao congresso nacional, no sentido de exigir que seja respeitada nossa sobrerania.
Esta se alastrando a olhos vistos a presença de ongs, principalmente na Amazonia. Que sabemos sobre elas? Que pretendem? Qual benefício existe em permitir sua presença?
Muitas trabalham com milhões de dólares a sustentar sua própria burocracia, em troca de alguns trocados ou serviços.
Bom trabalho, Olimpio Cruz.
abs
Convidaria o Sr Mércio a ler atentamente o site, e como é poliglota, pode ler duas vezes, em português e inglês, para compreensão de que se trata de um assunto de intesse universal,
http://www.hakani.org/pt/quebrando_silencio.asp
Quebrando o Silêncio
Tem assuntos que ninguém gosta de falar. Quando uma mulher indígena do grupo arawá sai para dar à luz, por exemplo, ninguém vai junto. Esse é um momento só dela. Ela sai sozinha, mesmo que seja muito jovem e aquele seja seu primeiro bebê. Ela procura uma árvore ou arbusto onde possa se apoiar, se agacha, e ali enfrenta suas dores. É ali, na hora do parto, que essa jovem mãe tem a grande responsabilidade de decidir o futuro da criança. Ela só poderá ficar com o bebê se ele for perfeito.
Se por alguma razão ela volta para a casa sem o bebê nos braços, o silêncio é geral. Ninguém pergunta o que houve. Nem o pai da criança, nem os avós, nem a amiga mais próxima. A jovem se afunda em sua rede, muitas vezes sem coragem ou forças nem para chorar. O assunto morre ali mesmo. Ninguém pergunta por que ela voltou sem o bebê. A mãe terá que carregar sozinha, em silêncio, pelo resto da vida, a lembrança dessa maldição, dessa má sorte, dessa infelicidade.
Às vezes ouve-se ao longe o choro abafado da criança, abandonada para morrer na mata. O choro só cessa quando a criança desfalece, ou quando é devorada por algum animal. Ou quando algum parente, irritado com a insistência daquele choro, resolve silenciá-lo com uma flecha ou um porrete.
Depois disso o silêncio é absoluto.
O infanticídio é um tabu. Da mesma maneira que o assunto é evitado nas sociedades indígenas, é evitado também na nossa sociedade. Ninguém fala, ninguém enfrenta, ninguém toma posição.
A posição mais cômoda continua sendo a da omissão – omissão muitas vezes maquiada de respeito às diferenças culturais.
Estamos vivendo um momento de mudança de atitudes. Algumas mulheres indígenas resolveram abrir a boca sobre esse assunto, tão polêmico e ao mesmo tempo tão doloroso para elas. A partir da iniciativa dessas mulheres, o tabu começou a ser quebrado e a mídia nacional vem veiculando diversas matérias sobre o assunto (Revistas Consulex – outubro 2005, Problemas Brasileiros, do SESC/SP de maio-junho 2007; Cláudia, julho de 2007; Veja, agosto 2007, dentre outras).
Nossa sociedade precisa parar de falar por um momento e ouvir essas vozes.
Os números são alarmantes.
Quebrando o Silêncio aborda o infanticídio a partir do depoimento dos próprios indígenas. Reúne relatos de parentes de vítimas, de agressores e de sobreviventes.
São ouvidos, ainda, antropólogos, advogados, religiosos, indigenistas e educadores.
Esperamos que este material ofereça dados suficientes para que se possa pelo menos tomar uma decisão importante. A decisão de levar essa discussão adiante – ouvir, discutir, refletir, com imparcialidade, e criar condições para que as comunidades indígenas possam resolver os conflitos que causam o infanticídio. Que, pelo menos por um momento, possamos silenciar ideologias e paixões e ouvir com empatia a voz de mulheres que se cansaram de enfrentar sozinhas essa dor. Que possamos tomar a decisão responsável de quebrar o silêncio sobre o infanticídio.
Ah meu Deus… crianças estao sendo assassinadas e os caras estão inconformados com as ONGs…
… a vida dos outros parece que vale tão pouco.