No Observatório de Imprensa, o jornalista Luiz Weis provoca o leitor ao se deparar com o editorial da Folha de domingo sobre os 60 anos da declaração universal dos direitos do homem. Segundo o veterano jornalista, faltam aos jornais coragem para desafiar os leitores com reportagens mais profundas e menos razas, que obriguem todos a pensar.
Ele lembra que o editorialista amarrou conceitos quanto às diferenças culturais das sociedades para advertir que nem todas as afrontas aos direitos humanos são condenáveis, já que vislumbres de culturas diversas mostram reações adversas. Weis cita o caso da extirpação de clitóris das adolescentes em países muçulmanos, uma prática tolerada aos olhos dos fundamentalistas – e até estimulada.
Escreve Weis: “Numa reportagem, essa discussão alcançaria muito mais leitores e os desafiaria a percorrer o terreno acidentado do relativismo cultural. Jornalismo de idéias é isso aí”.
Lei o artigo, publicado abaixo:
Desafio ao leitor – e ao jornalista
Luiz Weis
”A função do jornal é dar ao leitor apenas o que ele pensa que quer?”, pergunta o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, na sua coluna de domingo, 14, a propósito da teoria segundo o qual, pelo menos na área da cultura, o leitor cidadão virou o leitor consumista – desinteressado, portanto, do jornalismo de grandes vôos.
”Creio que não”, responde o próprio Lins da Silva. “Claro que [a imprensa] precisa satisfazê-lo, mas também deve desafiá-lo.”
Eis aí, em poucas palavras, o troco para a complacência, o nivelamento por baixo e o espírito de rendição com que um número de colegas – muito maior, talvez, do que seria aceitável – adentra todos os dias a redação de um periódico.
Como se dessem de ombros diante de qualquer sugestão de pauta que ouse confrontar o leitor com uma abordagem provocativa – desconfortável, eventualmente – dos fatos do noticiário.
Se o jornalismo é uma batalha inglória, como dizem os mais céticos, o jornalismo de idéias seria uma batalha perdida.
Não é, mas a tantos convém pensar assim. Pela simples razão de que o desafio ao leitor que o ombudsman da Folha defende é antes de tudo um desafio ao jornalista. Ele precisa dominar o assunto, pelo menos para o gasto jornalístico; ter imaginação para construir ao redor do tema uma pauta à altura da pretensão; apurar e articular os fatos e os conceitos; e saber escrever – mais ainda do que se deve cobrar de costume – com clareza, elegância e simplicidade.
Dá um trabalho de cão e nunca se sabe de antemão se o resultado compensará.
Mais fácil dar de ombros e entregar os pontos com um “ahhh, quem é que vai querer ler isso?”.
A saída pelo facilitário se apóia no argumento de que o leitor não está a fim de ser perturbado com matérias que rompam com as suas expectativas e o obriguem a ser menos “consumidor” e mais “pensador”.
Não que o argumento seja falso de cabo a rabo. Mas é o caso de invocar o direito das minorias: a parcela, vá lá a palavra, diferenciada do leitorado da chamada imprensa de qualidade faz jus a mais do que o trivial variado que recebe por seu dinheiro e que pode até ser bom o bastante para a maioria.
Essa parcela forma uma elite – a elite dos curiosos. Eles não são necessariamente nem os leitores mais instruídos ou os mais cultivados. São aqueles que por algum razão ou combinação de razões são receptivos a idéias novas – se não sobre qualquer assunto, sobre assuntos pelos quais já se interessavam.
Esse leitor não se sente amedrontado por matérias que saiam de convencional – desde que elas sejam capazes de conversar com ele (é onde entra, para o jornalista, o trabalho de cão de que se falou acima), o que implica não olhá-lo de cima para baixo.
É o que os jornais poderiam ter feito aproveitando o gancho da passagem dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foi o que ocorreu a este blogueiro ao ler o editorial – quem diria! – da Folha de domingo (14) sobre o assunto.
Indo além do óbvio sobre a atualidade do documento e o desrespeito continuado aos direitos humanos pelo mundo afora, o editorialista provocou o leitor com a lembrança de que nem todos consideram “realmente universais” os valores implícitos na Declaração.
Segundo um certo raciocínio com o qual o texto vai às vias de fato, “o que é válido para uma cultura não é necessariamente válido para qualquer outra, e a Declaração de 1948 resulta de uma circunstância histórica e de uma herança filosófica particular: a do Iluminismo ocidental”.
Ou seja, práticas hediondas como a excisão ritual do clitóris não deveriam merecer o repúdio universal porque seriam expressões culturais não menos determinadas pelos costumes e a história do que a própria noção da universalidade dos direitos.
Numa reportagem, essa discussão alcançaria muito mais leitores e os desafiaria a percorrer o terreno acidentado do relativismo cultural. Jornalismo de idéias é isso aí.