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	<title>ambulatório de focas</title>
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	<description>o olhar crítico de um professor de jornalismo</description>
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		<title>ambulatório de focas</title>
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		<title>Revista Economist analisa a decadência da grande imprensa</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jun 2009 22:30:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Crise na imprensa]]></category>
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		<description><![CDATA[Há algumas semanas, a respeito da crise que a imprensa mundial enfrenta, tratei um pouco do tamanho do buraco e como a nossa mídia anda mal das pernas. O Observatório da Imprensa publicou, nesta segunda-feira, a transcrição da matéria da revista inglesa Economist, a mais conceituada e influente semanal do mundo, sobre a tempestade que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=131&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Há algumas semanas, a respeito da crise que a imprensa mundial enfrenta, <a href="http://olicruz.wordpress.com/2009/05/08/imprensa-crise-e-credibilidade/" target="_blank">tratei um pouco</a> do tamanho do buraco e como a nossa mídia anda mal das pernas. O <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=539IMQ006" target="_blank">Observatório da Imprensa </a>publicou, nesta segunda-feira, a transcrição da <a href="http://www.economist.com/displaystory.cfm?story_id=13642689" target="_blank">matéria da revista inglesa <em>Economist</em></a>, a mais conceituada e influente semanal do mundo, sobre a tempestade que atravessam os grandes conglomerados de mídia nos Estados Unidos e na Europa. O quadro é assustador. Aos interessados, a leitura é mais do que recomendada. É obrigatória.</p>
<blockquote><p><img class="alignnone" src="http://media.economist.com/images/20090516/2009BB1.jpg" alt="" width="400" height="183" /></p>
<h4>O NEGÓCIO DA NOTÍCIA</h4>
<h2>No meio da tempestade</h2>
<h3>Não são apenas os jornais: grande parte da indústria de notícias estabekecida está se desintegrando. Mas a notícia é próspera</h3>
<p><a href="http://www.economist.com/displaystory.cfm?story_id=13642689" target="_blank"><em>The Economist</em></a> em 14/5/2009</p>
<p>Talvez o indício mais certo de que os jornais estão à beira do abismo seja o fato de que os políticos, por tantas vezes seus alvos, estejam começando a sentir pena deles. No dia 9 de maio, Barack Obama terminou um discurso, que até teve algo de cômico, com uma defesa sincera de empresas sob ataque. Comissões da Câmara dos Representantes e do Senado realizaram audiências sobre o assunto no mês passado. O senador John Kerry, de Massachusetts, chamou os jornais de &#8220;espécie em risco de extinção&#8221;.</p>
<p><span id="more-131"></span></p>
<p>E é verdade. Segundo a American Society of News Editors, o emprego nas redações caiu 15% nos dois últimos anos. Paul Zwillenberg, da OC&amp;C, uma empresa de consultoria, avalia que quase 70 jornais locais britânicos fecharam desde o início de 2008. O <em>Independent</em> e o <em>Evening Standard</em>, de Londres, dependem da generosidade de investidores estrangeiros. O arrocho não se restringe aos países anglófonos: os jornais franceses só evitaram destino semelhante garantindo um aumento em seus já pesados subsídios governamentais.</p>
<p>Os noticiários das emissoras de televisão também estão se debatendo. As audiências se romperam e se desgastaram: a parcela de norte-americanos que assiste ao noticiário do final da tarde nas &#8220;três grandes&#8221; redes (ABC, CBS e NBC) caiu de cerca de 30%, no início da década de 1990, para cerca de 16%. Os equipamentos para noticiários locais ficam caros, à medida que os revendedores de carros e as lojas enxugam seus anúncios. A ITV, maior emissora comercial britânica, está apelando para ser desobrigada de produzir noticiários locais.</p>
<p>Tudo isso provocou muita angústia. No entanto, as dificuldades enfrentadas pelas empresas jornalísticas não prevêem o fim das notícias. À medida que amplos setores da indústria murcham, brotam novos botões. O resultado é uma empresa menor e menos lucrativa, mas também mais eficiente e inovadora.</p>
<p><img alt="" src="http://media.economist.com/images/20090516/CBB363.gif" class="alignleft" width="256" height="248" />O quadro mais nítido de como o consumo de notícias está mudando vem de pesquisas feitas pelo Pew Research Centre. Desde 1994, o percentual de norte-americanos que diz que ouviu o noticiário pelo rádio na véspera caiu de 47% para 35%; entre os que lêem jornais, caiu 58% para 34%. Nesse mesmo período, as audiências de TV a cabo e da internet aumentaram. Em 2008, pela primeira vez, mais pessoas disseram que acompanhavam notícias internacionais e nacionais pela internet do que pelos jornais.</p>
<p><strong>Mais profunda, mas não mais ampla</strong><br />
Não se trata apenas da pessoa trocar um tipo de mídia por outro. Quase todo mundo que obtém notícias via internet, normalmente também as vê na televisão ou lê num jornal. Apenas 5% dos norte-americanos têm o hábito de acessar notícias somente na internet. A tecnologia permitiu que pessoas bem informadas ficassem ainda mais bem informadas, mas não ampliou a audiência por notícias. A descoberta mais alarmante do Pew Centre – pelo menos, para quem é do ramo – é de que o percentual de jovens entre 18 e 24 anos que não acessaram notícia alguma na véspera subiu de 25% para 34% nos últimos dez anos.</p>
<p>Aqueles que realmente procuram, obtêm notícias de outra maneira. Ao invés de se submeterem laboriosamente a um jornal matutino ou a um telejornal da noite, cada vez mais procuram o tipo de informação que querem, quando querem. Poucos pagam. Robert Thomson, editor-chefe do <em>Wall Street Journal</em>, diz que muitos deles acessam o noticiário online como se fosse &#8220;um restaurante de comida a quilo&#8221;.</p>
<p>A principal vítima dessa tendência não é tanto o jornal (embora esteja em evidente declínio), mas o pacote de notícias convencional. Veja qualquer jornal metropolitano importante, ou acesse sua página na internet, e encontrará as mesmas coisas. Haverá uma mistura de notícias locais, nacionais, internacionais, de economia e esportivas. Haverá a previsão do tempo. Haverá anúncios maiores e classificados. Haverá cartas de leitores e, provavelmente, uma palavra cruzada.</p>
<p>Esse pacote, que foi primeiramente imitado pelas emissoras e, em seguida, pelos pioneiros da internet, como AOL.com ou MSN.com, funciona como um centro comercial antiquado. Oferece uma razoável seleção de informações úteis, de qualidade confiável, num único lugar. E o destino do pacote de notícias é semelhante ao daquele centro comercial. Alguns clientes foram atraídos pelos descontos; outros procuraram as butiques.</p>
<p>Os grandes shopping centers do mundo da mídia são portais virtuais como o Yahoo! ou o Google, que reúnem dezenas de milhares de matérias. Alguns deles, como a Reuters e a Associated Press, exigem registro. Mas a maioria consiste apenas de um título, uma frase e um link com o site de um jornal ou de uma emissora de televisão onde a matéria pode ser lida na íntegra. Os agregadores ganham dinheiro afunilando os leitores na direção dos anúncios, que podem ser talhados de acordo com seus supostos interesses. E são fáceis de operar: o Google News nem sequer tem um editor.</p>
<p>Embora sejam convenientes, esses novos armazéns podem parecer impessoais. Foi aí que emergiu outro tipo de agregador, que oferece um resumo de notícias e um comentário. Alguns são ecléticos, como o <em>Daily Beast</em> e o <em>Drudge Report</em> – o avô dos agregadores de butiques. Outros são mais específicos, como <em>Perlentaucher</em>, um website cultural alemão. O mais bem-sucedido de todos, e que é o padrão para muitos jornalistas recém-desempregados que tentam criar seu próprio website, é o <em>Huffington Post</em>.</p>
<p>O <em>HuffPo</em>, como é amplamente conhecido, emprega apenas quatro repórteres numa equipe de cerca de 60 pessoas. Muitas de suas notícias são de segunda mão. Mas ostenta um exército não-pago de cerca de 3 mil blogueiros, em sua maioria de esquerda. O website parece a mistura de uma sala de universidade com um restaurante de Beverly Hills (sua atitude em relação ao <em>HuffPo</em> dependerá em grande parte de você achar ou não atraente um tal cenário). Ariana Huffington, que dirige o portal, chama-o de &#8220;comunidade em torno da notícia&#8221;. Segundo a empresa comScore, que faz pesquisas de mercado na internet o site tem atualmente 4,2 milhões de visitas únicas mensais – quase o dobro do <em>New York Post</em>.</p>
<p>Jornalistas mais antiquados queixam-se, cada vez mais, que os agregadores são &#8220;parasitas&#8221; que se aproveitam de seu trabalho. De certa forma, são, mas os parasitas podem ser úteis. À medida que a qualidade do jornalismo se torna mais errática, o trabalho de peneirar matérias é cada vez mais vital. E os agregadores puxam leitores, daí a publicidade para websites com noticiários originais. A empresa Hitwise, também de pesquisas de mercado, avalia que no mês de março 22% das referências a sites de notícias veio de ferramentas de busca como o Google, enquanto 21% viria de outros sites de notícias. &#8220;Os repórteres enviam-nos suas matérias o tempo todo&#8221;, ressalta Tina Brown, uma veterana de revistas que dirige o <em>Daily Beast</em>.</p>
<p>O crescimento dos agregadores revela um fato desconfortável em relação ao jornalismo. O sistema padrão de reportagem, no qual um jornalista arquiva uma matéria que é levada ao ar ou impressa e, em seguida, colocada num único website do proprietário, é ineficiente. O custo marginal de distribuir a matéria mais amplamente é perto de zero, mas o lucro marginal pode ser considerável. O interesse numa matéria sobre o Iraque publicada, por exemplo, pelo <em>Los Angeles Times</em>, vai muito além dos limites da cidade. Antes que os agregadores aparecessem, um leitor em Sevilha, ou mesmo em San Francisco, provavelmente nem saberia de sua existência.</p>
<p>O benefício característico de disseminar matérias ajuda a explicar por que alguns modelos de noticiários bem estabelecidos passaram a se parecer com agregadores. A Associated Press tem uma aplicação de um iPhone popular que combina matérias nacionais com locais a partir de outras 1.100 tomadas de parcerias de notícias. A News Corporation criou um website,</p>
<p><em>Fox Nation</em>, que mistura matérias jornalísticas com comentários direitistas. A intenção é tornar-se um <em>Huffington Post</em> conservador. E, sem dúvida, um dos grandes sucessos em publicações britânicas e norte-americanas é a Week, que na realidade é um agregador impresso em papel.</p>
<p>Com suas matérias se disseminando enormemente, os instrumentos de notícias, especificamente na língua inglesa, vêm assumindo identidades mais amplas. O website do <em>Guardian</em>, visitado por duas vezes mais pessoas no exterior do que na Grã-Bretanha, tem por objetivo tornar-se a voz internacional da opinião liberal. O <em>Daily Mail</em> construiu a fama de notícias sobre celebridades. Enfrentam-se novos desafios. A BBC, que criou um serviço por fio e vende anúncios em seus websites estrangeiros, compete agora com a Associated Press, que superou a fase de apenas fornecer matérias para jornais norte-americanos.</p>
<p><strong>Ir até as paredes</strong><br />
As notícias, de maneira geral, deverão continuar gratuitas na internet. O esmagamento de matérias semelhantes é muito grande, a tentação à pirataria é muito forte e os agregadores são ótimos para detectar reportagens decentes e gratuitas. Entretanto, tornou-se evidente que a publicidade online não consegue, por si só, manter um jornalismo bom e original.</p>
<p><img alt="" src="http://media.economist.com/images/20090516/CBB359.gif" class="alignleft" width="256" height="264" />Até recentemente, muitos executivos de jornais impressos acreditavam que a receita da publicidade acompanharia seus leitores do jornal para a internet. Entre 2004 e 2007, a receita da publicidade online duplicou, de 1,5 bilhão de dólares para 3,2 bilhões, segundo a Newspaper Association of America. Mas no segundo quadrimestre de 2008 começou a cair, à medida em que se acelerava a perda de anúncios impressos e classificados. A preocupação maior é que isso não pode ser apenas atribuído à recessão. O dinheiro da publicidade online mudou-se para ferramentas de busca – o Google, por exemplo – e o excesso de oferta diminuiu os preços dos anúncios. Conseqüentemente, os executivos procuram, esfomeados, pelas poucas ferramentas online que ousam pedir dinheiro a seus leitores.</p>
<p>Um deles é o <em>Financial Times</em> (co-proprietário do Economist), que exige registro de qualquer pessoa que queira ler mais de três artigos por mês e pagamento de quem queira acessar mais de dez. Cerca de 1 milhão de pessoas são registradas – e 109 mil delas pagam. Deixando de lado leitores eventuais, o <em>Financial Times</em> mantém sob controle aquilo que John Ridding, diretor-executivo da empresa, chama as &#8220;máquinas de ondas gigantes&#8221; da internet, como o Google e o Yahoo!, que trazem tráfego para o site. Anúncios dirigidos, que são mais lucrativos, são oferecidos aos leitores registrados. Trata-se de uma tentativa de fundir um modelo de assinaturas com um modelo financiado pela publicidade.</p>
<p>O <em>Wall Street Journal</em> adota uma atitude de bom senso visando a um destino semelhante. Ao invés de cobrar de determinados tipos de usuário, cobra por certos tipos de notícias. No início desta semana, oferecia gratuitamente uma matéria sobre a gripe suína, uma resenha do novo filme <em>Star Trek</em> e uma reportagem sobre novos descontos nas revendedoras de automóveis. Cobrava uma bagatela pelo plano de aposentadoria da Cigna Corporation, pelas despesas do lobby quadrimestral da Lockheed Martin e pela ação movida contra uma empresa que enche garrafas – a qual alega que foi realizada uma reunião de diretoria de forma inadequada. Resumindo, os artigos de entretenimento são gratuitos. Os textos secos, obscuros, custam dinheiro.</p>
<p>A idéia é de que artigos amplamente chamativos atraiam leitores para o website, onde podem ser tentados pela publicidade e por anúncios mais seletivos do Journal. A maioria das pessoas não se interessa por pensões ou aposentadorias de uma empresa de seguros de saúde de Filadélfia. Mas os que se interessam estão muito interessados – provavelmente, talvez até paguem uma assinatura mensal pelo serviço. É o que faz 1 milhão de pessoas – muito embora possam ser lidos gratuitamente no Google textos especializados. E aqueles que concordarem em pagar, podem ser persuadidos a adquirir mais bônus de conteúdo. O jornal também vem explorando um modelo de &#8220;micro-pagamentos&#8221; para artigos individuais.</p>
<p>Aparentemente, as notícias sobre finanças não são as únicas pelas quais as pessoas estão preparadas para pagar. O canal esportivo ESPN criou várias seções pagas em seu website. Protegem o tipo de informação que só os fãs mais apaixonados desejaria saber, aderindo, assim, à máxima do <em>Wall Street Journal</em>, segundo a qual a disponibilidade de alguém pagar por uma matéria é inversamente proporcional ao tamanho de sua audiência em potencial. O número de sites de notícias lucrativos pode crescer, à medida que concorrentes fecham seus escritórios ou simplesmente vão à falência.</p>
<p>É mais fácil que a recuperação de jornais e revistas resulte de uma cuidadosa combinação entre gratuito e pago do que pelas novas tecnologias. Leitores de notícias por celular, como o Kindle DX – que chegaram a ser celebrados como salvadores – apenas ajudarão na medida em que atraem leitores da internet, onde a maioria das notícias é gratuita. Ken Doctor, que trabalha na Outsell, uma empresa de pesquisas, acha que o Kindle é atraente para pessoas de meia idade que, de outra maneira, leriam uma revista ou um jornal. Os jovens preferem os iPhones e seus agregadores. A verdade é que, segundo o website da Amazon, as quatro revistas mais procuradas no Kindle são a <em>New Yorker</em>, a <em>Newsweek</em>, a <em>Time</em> e <em>Reader’s Digest</em> – o que dificilmente se poderia considerar um mercado jovem.</p>
<p><strong>Rei dos comentários</strong><br />
Na televisão a cabo, vem surgindo um novo tipo de produto. O canal direitista Fox News Channel tornou-se, de longe, o mais popular provedor de notícias comentadas. Isso não é surpreendente. Os noticiários e as mesas de opinião do canal são bem produzidos e a derrocada do Partido Republicano deixou os conservadores à procura de uma voz. Mais surpreendente é que o esquerdista MSNBC atraia agora mais telespectadores na faixa de 25 a 54 anos do que a muito mais conhecida CNN.</p>
<p>A Fox e o MSNBC divulgam uma mistura de notícias, entrevistas e, eventualmente, um comentário enfurecido. Phil Griffin, diretor-executivo do MSNBC, chama o canal de &#8220;notícias mais&#8221;. O objetivo é complementar e dar sentido à maçaroca de informações desconectadas a que os telespectadores têm acesso durante o dia. Os telespectadores sabem o que estão recebendo; na verdade, consideram os programas a cabo mais confiáveis do que os jornais. Contrapondo-se à conhecida acusação de partidarismo, Griffin oferece o que poderia ser o slogan da indústria dos noticiários a cabo: &#8220;Nós não tentamos ser todas as coisas para todas as pessoas&#8221;.</p>
<p>As discussões acaloradas podem ser populares, neste momento, porque os norte-americanos estão politicamente polarizados. A CNN, mais serena, ganhou a batalha pelos telespectadores a cabo na noite das eleições e pode muito bem fazê-lo de novo em 2012. No entanto, como tanta outra coisa na área do jornalismo, uma volta ao normal é improvável. O mercado pela notícia deverá continuar instável, dando preferência a provedores distintos em pontos distintos – na política, na economia e até no esporte.</p>
<p>Veja-se o caso de <em>Real Clear Politics</em>, um website político norte-americano que reúne notícias, comentários e pesquisa de opinião. Tornou-se leitura obrigatória durante a corrida presidencial do ano passado. Em seu ponto de pico, atraía 1,4 milhão de visitas únicas por mês, segundo a comScore. A partir de então, sua popularidade despencou 75%. Websites concorrentes, como <em>Fivethirtyeight.com</em> e <em>Talking Points Memo</em>, também perderam muitos leitores. Para jornais, revistas e programas de televisão, com seus custos fixos muito altos, essas flutuações seriam destrutivas.</p>
<p>Ainda há pouco tempo, a atividade com noticiários era altamente lucrativa. Jornais regionais cultivavam confortáveis monopólios e muitas vezes auferiam margens de lucro de mais de 20%. Nos Estados Unidos, emissoras de televisão local chegavam a ter margens de lucro de quase 50%. Entretanto, as notícias nem sempre devem ser lucrativas para sobreviver.</p>
<p>Mesmo em sua situação depreciada, os grandes jornais atraem os ricos, que procuram influência política ou empresarial, ou que acreditam que, no fundo, ainda há dinheiro a ganhar. Tony O’Reilly, que dirigiu o grupo Independent News &amp; Media até este ano, costumava descrever o jornal <em>Independent</em> como um cartão de visitas. Tolerava as perdas, embora os acionistas da empresa fossem menos pacientes. O apetite que Rupert Murdoch tem pela tinta de impressão, às vezes deixa desconsertados os analistas de Wall Street. No entanto, ainda no mês passado, consta que o magnata da mídia David Geffen tentou comprar ações na empresa-mãe do <em>New York Times</em>.</p>
<p>Algumas iniciativas menos deslumbrantes também atraem benfeitores. San Diego tem um pequeno e desatualizado website de notícias que, inicialmente, foi pago, e, grande parte, por empresários locais. A <em>Voice of San Diego</em> concentra-se em temas básicos da realidade, como a água, o crime e a saúde – o tipo de matérias que a imprensa local cobria exaustivamente. Desde há muito tempo, os Estados Unidos provaram que o noticiário radiofônico pode ser transmitido por organizações sem fins lucrativos. Na ausência de alternativas lucrativas, pode ser que um jornalismo caro e respeitável, sobre temas como a guerra no Iraque, venha a ser cada vez mais sustentado pela caridade.</p>
<p>A expansão das câmeras digitais também permitiu que pessoas comuns enviassem diretamente fotografias e reportagens. São incentivadas a fazê-lo por grandes empresas de mídia, como a CNN, que passaram a ver o jornalista-cidadão como uma fonte, tanto do conteúdo quanto das visitas às páginas. Os cidadãos provaram ser excelentes repórteres de notícias dramáticas, ou óbvias, como ataques terroristas ou aparições de Britney Spears. Leonard Brody, diretor de NowPublic, uma grande empresa canadense coletora de notícias, acredita que os amadores eventualmente irão liberar os jornalistas das tarefas maçantes de reportar, deixando-os livres para se concentrarem em analisar. É uma opinião generosa.</p>
<p>No momento, os jornalistas sofrem menos concorrência por parte das multidões do que por parte dos governos. Na Grã-Bretanha, as autoridades criaram boletins com publicidade. O orçamento anual para os websites da (estatal) BBC foi recentemente elevado para 145 milhões de libras esterlinas (220 milhões de dólares). Segundo Paul Zwillenberg, o total gasto pelos jornais britânicos em suas versões online é de 100 milhões de libras.</p>
<p>O presidente norte-americano revelou-se um jornalista-cidadão particularmente prolífico. As pessoas que passaram seus endereços eletrônicos para a equipe da campanha de Barack Obama no ano passado recebem regularmente mensagens. A Casa Branca coloca vídeos no YouTube que muitas vezes são mais bem-acabados do que aqueles produzidos por redes de notícias. Caso a intenção de ignorar os filtros da notícia não estivesse clara, durante sua segunda entrevista coletiva, em 24 de março, o presidente não respondeu a uma única pergunta de um jornal diário importante. É óbvio que ele sabe onde está o futuro.</p>
<p>O declínio de ex-grandes jornais e programas de notícias não sai de graça. Significa o fim de um certo tipo de sensibilidade cívica que foi construído sobre um amplo acordo do que é importante e do que não é. Mas, antigamente, era difícil imaginar o centro das cidades sem a presença unificadora dos centros comerciais. Muitos desapareceram, mas as pessoas continuam indo às compras.</p></blockquote>
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		<title>A entrevista de Gay Talese ao Estadão</title>
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		<pubDate>Fri, 08 May 2009 15:39:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Manual do repórter
Em entrevista exclusiva, o americano Gay Talese, mestre do Novo Jornalismo, fala de seu livro Vida de Escritor, que chega ao País, e dos desafios da imprensa na era da internet
A townhouse branca num nobre quarteirão do East Side não chama atenção, mas poderia ser tombada &#8211; tanto pelo desfile de luminares que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=129&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><div id="attachment_1100" class="wp-caption alignright" style="width: 277px"><img class="size-full wp-image-1100" title="arteelazer" src="http://olicruz.files.wordpress.com/2009/05/arteelazer.jpg?w=267&#038;h=472" alt="A capa do Caderno 2 do Estadão, com a entrevista de Gay Talese a Lúcia Guimarães. (Reprodução)" width="267" height="472" /><p class="wp-caption-text">A capa do Caderno 2 do Estadão, com a entrevista de Gay Talese a Lúcia Guimarães. (Reprodução)</p></div>
<h3>Manual do repórter</h3>
<p>Em entrevista exclusiva, o americano Gay Talese, mestre do Novo Jornalismo, fala de seu livro <em>Vida de Escritor</em>, que chega ao País, e dos desafios da imprensa na era da internet</p>
<p>A <em>townhouse</em> branca num nobre quarteirão do East Side não chama atenção, mas poderia ser tombada &#8211; tanto pelo desfile de luminares que por lá passaram, nos últimos 50 anos, como pelo proprietário. Numa manhã adorável de primavera, abro o gracioso portão de ferro, subo as escadas e toco a campainha da porta de vidro que separa o público da outra porta com a inscrição &#8220;Talese&#8221;. Atrás de mim, Taís Moraes, jornalista-cinegrafista-editora, esconde o equipamento. Tememos uma reação rabugenta do anfitrião que estará inevitavelmente vestido como um dândi de outra era, num horário em que muitos colegas seus só deram conta de escovar os dentes.</p>
<p>O sorriso largo e o aperto de mão generoso, apesar da gripe suína, me encorajam a explicar que a trama é um pouco mais complexa. Além da entrevista, precisamos de foto e vídeo (para veicular trechos da conversa no portal do Estado na internet). Ele concorda sem hesitação e me oferece a escolha entre a belíssima sala de visitas, a sala de jantar ou o jardim de inverno; escolho a sala de visitas. Gay Talese, um dos pais do Novo Jornalismo, um nome que ele desdenha, gosta de conversar com anônimos, algo que transformou numa arte ao longo de sua obra &#8211; mas como todo bom contador de histórias, não perde a loquacidade ao revisitar as próprias memórias.</p>
<p><span id="more-129"></span>O autor do mais famoso perfil de revista da imprensa americana, <em>Frank Sinatra Está Resfriado</em>, publicado pela revista <em>Esquire</em>, em 1966, não só goza de boa saúde, como não aparenta seus 77 anos. Dois de seus livros mais bem-sucedidos, <em>A Mulher do Próximo</em>, sobre a revolução sexual nos anos 70, e <em>Honra o Teu Pai</em>, uma história da família mafiosa Bonnano, acabam de ser relançados nos Estados Unidos, com novas introduções e posfácios. <em>Vida de Escritor</em> (Companhia das Letras), seu volumoso e atípico livro sobre o ofício que fez dele um cronista obrigatório do pós-guerra americano, sai no Brasil nesta semana.</p>
<p>O ator Stanley Tucci acaba de escrever um roteiro baseado em <em>Para os Filhos</em>, a obra de Talese sobre sua origem italiana. E os 50 anos do que ele descreve como &#8220;um arranjo incomum&#8221; &#8211; seu casamento com a agente literária Nan Talese -, serão contados num próximo livro. Imagino que seu editor estará pronto para registrar bodas mais avançadas porque Talese é lendário na sua lentidão para entregar um manuscrito.</p>
<p>Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade, o jornalista e escritor &#8211; que estará no Brasil em julho, participando da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) &#8211; fala de seu método de trabalho, sexualidade, casamento e, claro, sobre a crise dos jornais e por que a sociedade precisa deles: &#8220;No prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio.&#8221;</p>
<p><strong>O senhor já descreveu o ato de trabalhar num livro com metáforas dolorosas como &#8220;expelir pedras de rins&#8221;. Com este não foi diferente, certo?</strong><br />
Pior ainda. Demorei mais de 10 anos. No começo, você tem uma ideia e é movido pela curiosidade. Mas não é porque você persegue a própria curiosidade que vai chegar a algum lugar, na análise final de um trabalho publicado. Você tem que se envolver ou, ao menos, começar a se envolver. É aí que o que eu chamo de perda de tempo começa a progredir, em reversão. Porque para escrever não ficção &#8211; eu não escrevo ficção -, não fabrico fatos, não tomo liberdade com eles. Para que a sua procura pelos fatos tome a forma da narrativa de ficção, você tem que conhecer seus personagens muito bem. Tem que estabelecer com eles uma compatibilidade, uma compreensão não só do que eles dizem mas também do que estão pensando. É preciso que haja um relacionamento, quase um caso de amor. O que não quer dizer que você passe por uma rendição de todo o afeto e da capacidade de julgar &#8211; de jeito nenhum. Há sempre uma parte da vida do escritor que é ser escritor, não importa como você viva. É a sensibilidade isolada do escritor, o estado de alerta, a separação &#8211; como escritor, você se separa dos outros o tempo todo. Porque há uma parte de você que está registrando, como escritor, o que vê e o que sente. Mas, ainda assim, você precisa desta relação de trabalho muito próxima e isto leva tempo. Assim como uma amizade demora a se formar, assim como fazer a corte leva tempo. Às vezes, você encontra alguém, acha que gosta da pessoa, que até ama esta pessoa e, depois, não dá certo.</p>
<p><strong>Foi assim com <em>Vida de Escritor</em>?</strong><br />
No livro, eu descrevo a forma que acompanha a curiosidade, o que você faz depois que a curiosidade o leva para uma certa direção. Como você se mantém na missão, como mantém o curso, como não se perde. É isto o que eu chamo a arte de &#8220;hanging out&#8221;. É assim que faço meu trabalho. Eu não saio por aí anotando tudo ou gravando. Mas eu carrego comigo estes cartões aqui (mostra várias cartolinas de caixas de camisas sociais recortadas em retângulos que cabem no bolso do paletó). E eu saio com uma caneta o tempo todo, anoto umas coisas, de preferência não na frente das pessoas. E aí, quando termino de trabalhar no fim do dia, uso a máquina de escrever (a mesma IBM elétrica há 35 anos). Depois que faço toda a pesquisa &#8211; e isso pode demorar anos &#8211; é que escrevo. Eu demoro 7, 8, 9 anos para escrever um livro.</p>
<p><strong>Mas, se ficar entusiasmado com um personagem ou uma história, não dá vontade de começar a escrever logo?</strong><br />
Oh, não! Nunca tenho vontade de escrever logo (risos). E muitas vezes não quero escrever de jeito nenhum&#8230; Esta parte que é dureza. Divertido é pesquisar. Especialmente quando viajo muito com os personagens; às vezes vou longe atrás deles. Neste livro, quando fui atrás da jogadora de futebol chinesa, não tinha nada marcado com ela. Simplesmente tomei um avião e fui procurá-la entre os bilhões de chineses. Mas não é possível escrever sem antes organizar, avaliar o material que se tem. Nunca fiz cinema mas o meu método não é muito diferente do de um diretor fazendo seu <em>storyboard</em>. Tudo o que eu escrevo, seja um livro ou artigo de revista, começa com uma cena.<br />
<strong>No posfácio da nova edição de <em>A Mulher do Próximo</em>, o senhor diz que nada mudou em termos de atividade sexual. Mas não há uma diferença? A motivação do sexo livre hoje não é mais cínica e menos boêmia?</strong><br />
Em 1970, quando comecei as pesquisas para o livro, o momento era de muita agitação. Havia o movimento contra a Guerra do Vietnã &#8211; os estudantes se engajavam de um modo como não se engajaram com a guerra no Iraque, porque tínhamos o alistamento obrigatório. Havia um espírito de revolução, a continuação do movimento de direitos civis, a explosão feminista. As leis contra obscenidade tinham mudado no final da década de 50 e isto afetou tudo, o cinema, a performance, a fotografia; a nudez foi liberada nos anos 60. As jovens tinham se liberado e eram mais permissivas do que suas mães. Em casas de massagens havia mulheres com idade para serem universitárias trabalhando com a mesma informalidade com que trabalhariam de garçonete ou numa biblioteca. Era um trabalho como qualquer outro, não havia a consciência, não havia o questionamento de si mesmas sobre o que faziam &#8211; era, de fato, sexualidade mercenária. Agora, você vê a mesma coisa, mas não pela mesma razão. A revolução dos anos 70 não é mais revolucionária, é ordinária. Para a minha perplexidade, hoje jovens praticam sexo oral como se fosse um aperto de mão. Quando eu estudava, sexo oral quase não era mencionado. Era mais íntimo do que intercurso sexual. Quando Bill Clinton disse que não estava fazendo sexo com &#8220;aquela mulher&#8221;, Monica Lewinsky, quem sabe achasse mesmo que não era sexo, só uma apresentação social&#8230;</p>
<p><strong>No posfácio de <em>A Mulher do Próximo</em>, o senhor ataca críticos pela reação ao lançamento do livro.<br />
</strong>Quando <em>A Mulher do Próximo</em> saiu, em 1980, foi severamente criticado, e eu também. Consideram o livro uma tentativa de me esbaldar. É verdade que, tal como em outros livros, eu me envolvi totalmente, tornei-me nudista, era freguês de casas de massagens. Como é que você sabe o que se passa ali se não participa? Ficar na coletiva de imprensa, pegar o avião com o presidente, isso dá ao repórter a versão oficial. A reportagem sobre a sexualidade tem que ser feita em primeira mão. Ou você tem acesso ou desiste de escrever.</p>
<p><strong>Mas o livro lhe custou em termos de privacidade&#8230;</strong><br />
Eu invadi a minha própria privacidade, deliberadamente, e me submeti ao mundo sobre o qual queria escrever, o mundo erótico, privado, do adultério consensual, do merchandising sexual e da pornografia. Sou de família católica, era coroinha em 1940. A ideia do pecado sexual estava inculcada em mim. Queria descobrir a diferença entre o pecado na minha infância, quando as freiras me contavam o que ia me mandar para o inferno, e o pecado naqueles anos. Quem eram os novos pecadores? Eram diferentes de mim? Então, tive que me associar aos pecadores. Se você quer escrever sobre eles, tem que acompanhá-los ao inferno. &#8220;Hanging out&#8221; no inferno, foi o que fiz.</p>
<p><strong>E sua mulher, que foi descrita na imprensa como a esposa passiva?</strong><br />
Aí está o problema. Lá estou eu, no meio daquele troca-troca, liberdade total. Sou casado e as minhas filhas são adolescentes. E eu fui muito franco sobre tudo. Não tenho motivo para me desculpar, era um grande repórter, estava escrevendo sobre a verdade e explorando a verdade. Enquanto isso, minha mulher ficava lendo as histórias sobre mim e os jornais especulavam sobre ela. E ela dizia: meu marido é escritor, está trabalhando no livro. Mas ela queria se divorciar do meu trabalho. Não de mim. Se bem que ela saiu de casa algumas vezes, não aguentou tanta atenção.</p>
<p><strong>Por que o senhor está escrevendo memórias do seu casamento de 50 anos com Nan Talese?</strong><br />
É uma boa história. Um escritor tem uma ideia do que é uma boa história. É claro que ela não é igual para Gabriel García Márquez ou Philip Roth. Tenho ideias muito claras sobre o que me interessa. Durante todo o tempo em que estava contando outras histórias, estava casado com a mesma mulher. E foi uma história que se passou toda no mesmo lugar, nesta casa. Nós nos casamos aqui em 1959.</p>
<p><strong>Pesou na sua decisão a possibilidade de que talvez outros autores fossem escrever sobre o seu casamento após sua morte?</strong><br />
Sim, achei que eu devia escrever porque saberia mais do que um biógrafo depois que estivermos mortos. Nós temos um arranjo incomum no nosso casamento.</p>
<p><strong>Mas sua mulher colabora com o projeto sendo entrevistada por outros repórteres, certo?</strong><br />
Ela fala com dois repórteres e eles escolhem o que perguntar. Ela relutou no começo mas, após ver uma reportagem recente sobre o assunto, constatou uma reação tão favorável que se animou. Testemunhamos muita coisa. Como editora, ela teve grandes experiências.</p>
<p><strong>O senhor compara a exposição da sua privacidade de então e a privacidade na vida contemporânea?</strong><br />
As pessoas precisam tanto se comunicar com os outros. Dizem que querem privacidade, mas ninguém quer. Quem quer isolamento? Às vezes se quer estar sozinho, por momentos, mas gente precisa de gente. É muito diferente se os papparazzi estão com as lentes na janela do seu quarto. Mas acho que você consegue o que quer. Se quer privacidade, pode escapar.</p>
<p><strong>O senhor disse que hoje seria impossível escrever artigos de mais de dez mil palavras para revistas, como o senhor fazia na <em>Esquire</em>. Qual o efeito da internet sobre a reportagem?</strong><br />
Não uso a internet, não me interessa a tecnologia. Trabalho basicamente como há 50 anos. Se precisar saber quem foi o vice-presidente no ano tal, posso usar o Google e não vou até a biblioteca&#8230; Mas as pessoas sobre quem quero descobrir alguma coisa não são famosas. Se eu fizesse uma busca no Google sobre os personagens reais de A Mulher do Próximo, eles apareceriam associados ao meu nome. Muita gente que entrevistei estava falando com um repórter pela primeira vez. Eu sou o historiador de pessoas que não têm história registrada em público.</p>
<p><strong>O senhor escreveu há 40 anos a primeira narrativa importante sobre o <em>New York Times</em>. Como vê as dificuldades que o jornal atravessa?</strong><br />
Você está me perguntando sobre o futuro do jornalismo. Bem, acho que a nova geração que assumiu o jornal nos anos 90, no limiar da revolução tecnológica, amadureceu sob o impacto da tecnologia e fez um erro calculado de oferecer notícias de graça. A publicidade ia pagar por todo o custo de apurar notícias. A decisão foi feita num comitê corporativo, como se fosse um colégio de cardeais. Os executivos e os proprietários, os Sulzbergers, acho que eles prestaram um desserviço a si mesmos e desvalorizaram um grande jornal ao concordar que o negócio era entregar tudo de graça. Eles arruinaram o próprio futuro quando foram incapazes de julgar de maneira adequada o que faziam. Porque o que o <em>New York Times</em> faz não pode ser feito por outros na internet. Há outros grandes jornais, claro, mas vamos ficar com o jornal que conheço melhor. Eles mandam repórteres para o Rio, para Roma, para a Islândia. E o custo de obter a notícia &#8211; de forma correta, não só em primeira mão, mas de maneira correta &#8211; deve ser a maior prioridade. Não há alternativa no mundo para este tipo de trabalho. Não se resolve com bloggers inventando histórias nos seus quartos. O estrago já foi feito e eles perceberam, tarde demais, que era inviável do ponto de vista financeiro. O que fazer agora? Bem, para ser justo, eu lhes dou crédito por não ter reduzido a redação a ponto de prejudicar a qualidade do jornal. O <em>Times</em> ainda é um grande jornal. Acho que é um jornal melhor hoje do que quando saí, em 1965.</p>
<p><strong>Por que o <em>Times</em> se tornou melhor?</strong><br />
Os jornalistas são mais bem educados do que os da minha geração. A linguagem, o vocabulário deles é mais inteligente, fazem referências literárias e esperam que o leitor entenda. Mas há o lado negativo. Há uma nova intimidade entre o mundo do governo, o mundo corporativo e o poder da imprensa. É como uma fusão de classes sociais, todos vêm de uma formação educacional mais sólida. E acho também que os jornais, principalmente o Times, cobrem governo demais e não o país que não vive perto do governo. Se eu fosse o editor, cortava a redação de Washington pela metade e distribuía os repórteres pelo país.</p>
<p><strong>Como o senhor vê o desempenho do governo Obama?</strong><br />
Rezei para o país ter uma cara nova. Adoro o fato de que ele vai conversar com o mundo, com Castro, com Chávez. O país não pode mais escolher com quem fala se espera ser ouvido. A jornada do Obama é entender e ser entendido. Ele não é um covarde, não tem a arrogância de Bush.</p>
<p><strong>E como vê a maneira como Obama lida com a imprensa, com menos reverência e uma certa habilidade de falar direto com o público?</strong><br />
Eu acho ótimo, ele tem razão de apontar as limitações da nossa imprensa que, às vezes, desinforma. E, o que é pior, vai adiante espalhando a desinformação. Há tantos exemplos de reputações destruídas por jornalismo incompetente.</p>
<p><strong>Por que nós precisamos de jornais?</strong><br />
Porque no prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio. Há mentirosos nos jornais também, mas em menor número. Nos prédios do governo, nas escolas, instituições científicas, estádios de esporte, nas fábricas, a mentira circula num grau mais alto. Os jornais estão mais interessados na verdade, mesmo se cometem erros, às vezes, erros involuntários. E se você ainda quer a verdade, é mais fácil chegar a ela por intermédio de um jornal do que em qualquer outra instituição. Os jornais ainda oferecem a melhor chance de manter a verdade em circulação.</p>
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		<title>Em defesa da liberdade de expressão</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Mar 2009 14:53:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Li, com surpresa, a carta aberta do jornalista Leandro Fortes, publicada no site da revista CartaCapital e reproduzida nos blogs dos colegas Luís Nassif e Luiz Carlos Azenha, sobre a determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, de retirar do site da TV Câmara o programa &#8220;Comitê de Imprensa&#8221;, apresentado pelo jornalista [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=124&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Li, com surpresa, a carta aberta do jornalista Leandro Fortes, publicada no site da revista <a href="http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&amp;a2=8&amp;i=3640/" target="_blank">CartaCapital</a> e reproduzida nos blogs dos colegas <a href="http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/03/20/gilmar-censura-tv-camara/" target="_blank">Luís Nassif</a> e <a href="http://www.viomundo.com.br/denuncias/gilmar-mendes-pede-a-retirada-do-ar-de-programa-da-tv-camara-que-ouviu-jornalistas-de-o-globo-e-carta-capital/" target="_blank">Luiz Carlos Azenha</a>, sobre a determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, de retirar do site da TV Câmara o programa &#8220;Comitê de Imprensa&#8221;, apresentado pelo jornalista Paulo José Cunha.</p>
<p>O programa, recuperado por Azenha e colocado no <a href="http://www.youtube.com/watch?v=TCFP6qnjl94" target="_blank">YouTube</a>, tinha como convidados Leandro Fortes e o jornalista Jailton Carvalho, repórter de O Globo, e tratava do comportamento da mídia quanto à Operação Satiagraha, conduzida pelo delegado federal Protógenes Queiroz. Pois o presidente do STF mandou tirá-lo do site da Câmara. Assim, sem mais nem menos.</p>
<p>Nunca vi um magistrado adotar tal comportamento. O programa, como vocês devem imaginar, não tinha nenhuma agressão ao próprio Gilmar ou fazia considerações desrespeitosas à Justiça brasileira. Tratava apenas de mostrar os jogos de interesse, os riscos de manipulação por parte da imprensa ao pintar Protógenes como tresloucado e desmerecer o trabalho de Paulo Lacerda à frente da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), antes de ser afastado do cargo para tornar-se adido policial na Embaixada do Brasil em Portugal.</p>
<p>É simplesmente estarrecedor o que o presidente do STF fez. E, pior, foi a concordância do presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP). O programa, cuja audiência já havia sido contemplada com quatro reapresentações na TV Câmara, agora ganhará status de &#8220;debate cult&#8221;, com algumas milhares de pessoas procurando-o na internet. Se Gilmar Mendes queria que a opinião pública não tivesse acesso ao programa, sua decisão foi pior. Tornou-o objeto de discussões na blogosfera e chamou a atenção dos formadores de opinião para a censura imposta pelo chefe do Judiciário. Que lástima!</p>
<p>É hora de os jornalistas reagirem. Daqui a pouco, o presidente do STF manda jornalista calar a boca. Ele já fez isso. Inclusive comigo, há muitos anos, quando ele era advogado-geral da União e eu, repórter do <em>Correio Braziliense</em>.</p>
<p>Sei não, mas lembro assim de <em>O ovo da serpente</em>, filme do Ingmar Bergman, e o estranho silêncio pairando diante de evidências cada vez maiores do desequilíbrio do presidente do STF.</p>
<p>Eis a íntegra da carta de Leandro, abaixo:</p>
<blockquote>
<h2>Carta aberta aos jornalistas do Brasil</h2>
<p>Por Leandro Fortes</p>
<p>No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado &#8220;Comitê de Imprensa&#8221;, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e &#8220;aterradoras&#8221; revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do &#8220;Comitê de Imprensa&#8221;, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.</p>
<p><span id="more-124"></span>Nesta carta, contudo, falo somente por mim.</p>
<p>Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalista, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico &#8211; de áudio nunca revelado &#8211; envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.</p>
<p>Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.</p>
<p>Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.</p>
<p>Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: &#8220;Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta&#8221;. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?</p>
<p>Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.</p>
<p>Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.</p>
<p><em>* Jornalista, é repórter da revista CartaCapital e professor do Iesb.</em></p></blockquote>
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		<item>
		<title>Weis provoca: &#8220;E o jornalismo de idéias?&#8221;</title>
		<link>http://ambulatoriodefocas.wordpress.com/2008/12/16/weis-provoca-e-o-jornalismo-de-ideias/</link>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 17:52:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Eduardo Lins e Silva]]></category>
		<category><![CDATA[Folha]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Weis]]></category>
		<category><![CDATA[Observatório de Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Ombudsman]]></category>

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		<description><![CDATA[No Observatório de Imprensa, o jornalista Luiz Weis provoca o leitor ao se deparar com o editorial da Folha de domingo sobre os 60 anos da declaração universal dos direitos do homem. Segundo o veterano jornalista, faltam aos jornais coragem para desafiar os leitores com reportagens mais profundas e menos razas, que obriguem todos a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=120&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>No <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/blogs.asp?id_blog=3&amp;id={16CBC982-96D7-42C2-990C-84445262D07B}" target="_blank">Observatório de Imprensa</a>, o jornalista Luiz Weis provoca o leitor ao se deparar com o editorial da <em>Folha</em> de domingo sobre os 60 anos da declaração universal dos direitos do homem. Segundo o veterano jornalista, faltam aos jornais coragem para desafiar os leitores com reportagens mais profundas e menos razas, que obriguem todos a pensar.</p>
<p>Ele lembra que o editorialista amarrou conceitos quanto às diferenças culturais das sociedades para advertir que nem todas as afrontas aos direitos humanos são condenáveis, já que vislumbres de culturas diversas mostram reações adversas. Weis cita o caso da extirpação de clitóris das adolescentes em países muçulmanos, uma prática tolerada aos olhos dos fundamentalistas &#8211; e até estimulada.</p>
<p>Escreve Weis: &#8220;Numa reportagem, essa discussão alcançaria muito mais leitores e os desafiaria a percorrer o terreno acidentado do relativismo cultural. Jornalismo de idéias é isso aí&#8221;.</p>
<p>Lei o artigo, publicado abaixo:</p>
<p><span id="more-120"></span></p>
<blockquote>
<h2>Desafio ao leitor &#8211; e ao jornalista</h2>
<p>Luiz Weis</p>
<p>”A função do jornal é dar ao leitor apenas o que ele pensa que quer?”, pergunta o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, na sua coluna de domingo, 14, a propósito da teoria segundo o qual, pelo menos na área da cultura, o leitor cidadão virou o leitor consumista – desinteressado, portanto, do jornalismo de grandes vôos.</p>
<p>”Creio que não”, responde o próprio Lins da Silva. “Claro que [a imprensa] precisa satisfazê-lo, mas também deve desafiá-lo.”</p>
<p>Eis aí, em poucas palavras, o troco para a complacência, o nivelamento por baixo e o espírito de rendição com que um número de colegas – muito maior, talvez, do que seria aceitável – adentra todos os dias a redação de um periódico.</p>
<p>Como se dessem de ombros diante de qualquer sugestão de pauta que ouse confrontar o leitor com uma abordagem provocativa – desconfortável, eventualmente – dos fatos do noticiário.</p>
<p>Se o jornalismo é uma batalha inglória, como dizem os mais céticos, o jornalismo de idéias seria uma batalha perdida.</p>
<p>Não é, mas a tantos convém pensar assim. Pela simples razão de que o desafio ao leitor que o ombudsman da Folha defende é antes de tudo um desafio ao jornalista. Ele precisa dominar o assunto, pelo menos para o gasto jornalístico; ter imaginação para construir ao redor do tema uma pauta à altura da pretensão; apurar e articular os fatos e os conceitos; e saber escrever – mais ainda do que se deve cobrar de costume – com clareza, elegância e simplicidade.</p>
<p>Dá um trabalho de cão e nunca se sabe de antemão se o resultado compensará.</p>
<p>Mais fácil dar de ombros e entregar os pontos com um “ahhh, quem é que vai querer ler isso?”.</p>
<p>A saída pelo facilitário se apóia no argumento de que o leitor não está a fim de ser perturbado com matérias que rompam com as suas expectativas e o obriguem a ser menos “consumidor” e mais “pensador”.</p>
<p>Não que o argumento seja falso de cabo a rabo. Mas é o caso de invocar o direito das minorias: a parcela, vá lá a palavra, diferenciada do leitorado da chamada imprensa de qualidade faz jus a mais do que o trivial variado que recebe por seu dinheiro e que pode até ser bom o bastante para a maioria.</p>
<p>Essa parcela forma uma elite – a elite dos curiosos. Eles não são necessariamente nem os leitores mais instruídos ou os mais cultivados. São aqueles que por algum razão ou combinação de razões são receptivos a idéias novas – se não sobre qualquer assunto, sobre assuntos pelos quais já se interessavam.</p>
<p>Esse leitor não se sente amedrontado por matérias que saiam de convencional – desde que elas sejam capazes de conversar com ele (é onde entra, para o jornalista, o trabalho de cão de que se falou acima), o que implica não olhá-lo de cima para baixo.</p>
<p>É o que os jornais poderiam ter feito aproveitando o gancho da passagem dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foi o que ocorreu a este blogueiro ao ler o editorial – quem diria! – da Folha de domingo (14) sobre o assunto.</p>
<p>Indo além do óbvio sobre a atualidade do documento e o desrespeito continuado aos direitos humanos pelo mundo afora, o editorialista provocou o leitor com a lembrança de que nem todos consideram “realmente universais” os valores implícitos na Declaração.</p>
<p>Segundo um certo raciocínio com o qual o texto vai às vias de fato, “o que é válido para uma cultura não é necessariamente válido para qualquer outra, e a Declaração de 1948 resulta de uma circunstância histórica e de uma herança filosófica particular: a do Iluminismo ocidental”.</p>
<p>Ou seja, práticas hediondas como a excisão ritual do clitóris não deveriam merecer o repúdio universal porque seriam expressões culturais não menos determinadas pelos costumes e a história do que a própria noção da universalidade dos direitos.</p>
<p>Numa reportagem, essa discussão alcançaria muito mais leitores e os desafiaria a percorrer o terreno acidentado do relativismo cultural. Jornalismo de idéias é isso aí.</p></blockquote>
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		<title>Matamos Eloá</title>
		<link>http://ambulatoriodefocas.wordpress.com/2008/10/20/matamos-eloa/</link>
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		<pubDate>Mon, 20 Oct 2008 13:20:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Eloá Cristina Pimentel]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalentretenismo]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo de entretenimento]]></category>
		<category><![CDATA[Lindemberg Fernandes Alves]]></category>
		<category><![CDATA[Morte]]></category>
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		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Seqüestro]]></category>

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		<description><![CDATA[* Olímpio Cruz Neto
Jornalista é um bicho pernicioso e um tanto quanto metido. Gosta de falar sobre tudo e tem sempre uma opinião a respeito de qualquer coisa. Ainda que não seja um especialista em absolutamente nada. Falo isso para lembrar que, todos os dias, jornalistas cometem erros. O mais grave aconteceu na semana que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=113&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>* Olímpio Cruz Neto</p>
<p>Jornalista é um bicho pernicioso e um tanto quanto metido. Gosta de falar sobre tudo e tem sempre uma opinião a respeito de qualquer coisa. Ainda que não seja um especialista em absolutamente nada. Falo isso para lembrar que, todos os dias, jornalistas cometem erros. O mais grave aconteceu na semana que passou. </p>
<p>Em mais um capítulo dantesco da nossa era do &#8220;jornalentretenismo&#8221; (sic) ou do jornalismo de entretenimento, a mídia ultrapassou os limites éticos e escancarou como é ela uma especialista em promover espetáculos em vez de informação para o deleite da nossa sociedade.</p>
<p><span id="more-113"></span></p>
<p>Aponto o caso da menina Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, seqüestrada e morta pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves, 22 anos, depois de ter permanecido sob seu tacão durante cinco dias. Se você não estava em Marte, sabe que o caso aconteceu em Santo André, na região metropolitana de São Paulo. A menina foi vítima do rapaz, mas também da mídia, incluindo aqui nós, os jornalistas.</p>
<p>Durante cinco dias, sob intenso bombardeio, a sociedade brasileira foi brindada por flashes no rádio e na televisão sobre o andamento do rapto da garota, depois que o ex-namorado invadiu o apartamento onde a jovem morava e a manteve sob cárcere privado, junto com outra adolescente e dois amigos. </p>
<p>Ninguém se preocupou em preservar a garota. Ou a amiga dela, que também acabou ferida no desfecho do caso, na sexta-feira. Elas não eram menores de idade? E por que diabos não foi invocado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para proteger a identidade de Eloá? Por que exibir suas fotos e seu nome?  Ou da amiga?</p>
<p>O caso teve todos os contornos de um drama de novela das oito, de cunho folhetinesco. A história do rapaz que levou um fora da namorada e, movido pelo ciúme, resolveu tomá-la de volta. </p>
<p>As emissoras de televisão se esbaldaram. Mais uma vez. Assim como no caso da garota Isabela Nardoni, não tivemos freios para tocar o espetáculo. Afinal, o raciocínio nas TVs e rádios é de que é preciso garantir a audiência. E dane-se o resto. <em>Panis et circensis</em>&#8230;</p>
<p>O caso é emblemático para fazer do país matriz mais que atual do conceito de sociedade do espetáculo, citando Guy Debord. </p>
<p>O fato é que, assim como no caso Nardoni, houve dessa vez de tudo um pouco. Com menos de 24 horas, o seqüestro passou a ser acompanhado quase que exclusivamente pela televisão. Em tempo real, como manda o marketing das nossas emissoras.  </p>
<p>Enquanto a polícia negociava com o rapaz, estrelas do &#8220;jornalentretenismo&#8221;, como Luis Datena e Sônia Abraão, disputavam a primazia de capturar a atenção do espectador para exibir as melhores &#8220;entrevistas&#8221; com Lindemberg.</p>
<p>O próprio rapaz passou a acompanhar o drama em que era ele mesmo o protagonista pela televisão. Lindemberg sabia o que pensavam os especialistas graças à televisão. E era pela televisão que se &#8220;defendia&#8221; ou falava de seus sentimentos. Sempre para os âncoras do jornalismo de entretenimento.</p>
<p>Os sinais de que a mídia extrapolara suas funções ficaram claros ainda no primeiro dia, quando a jovem apareceu na janela de seu apartamento sorrindo para as câmeras. Ora, ora&#8230; Ninguém, em sã consciência, considera isso um sinal de embaraço? Nada, toquemos o espetáculo.</p>
<p>Daí até as sucessivas &#8220;entrevistas exclusivas&#8221; de Lindemberg, a palavra de especialistas &#8211; psicólogos, terapeutas, pastores e toda sorte de midiáticos -, as &#8220;negociações&#8221; feitas por cartolas, a interferência de comentaristas, a sucessão de sandices correu sem qualquer tipo de controle. Quando veio a soltura da amiga de Eloá, chamada Nayara, o clima já era de catarse.</p>
<p>No dia da invasão da PM ao apartamento onde estava o rapaz e as duas garotas, a imprensa já tinha perdido a chance de exercer qualquer espécie de avaliação crítica sobre sua própria atuação. E dá-lhe certezas peremptórias sobre o desequilíbrio de Lindemberg e quantos anos de &#8220;cana dura&#8221; ele ia puxar&#8230;</p>
<p>Agora, a mídia busca culpados. Fala-se na inépcia da polícia. Pode ser. Mas, não precisamos ir muito longe. Jornalistas, apresentadores de tevê e congêneres, todos nós precisamos de espelho. Gritemos: Eloá, nós te matamos.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Bucci e o diploma de jornalista</title>
		<link>http://ambulatoriodefocas.wordpress.com/2008/09/26/bucci-e-o-diploma-de-jornalista/</link>
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		<pubDate>Fri, 26 Sep 2008 18:13:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Diploma]]></category>
		<category><![CDATA[Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[Eugênio Bucci]]></category>

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		<description><![CDATA[Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, acadêmico e autor do livro &#8220;Em Brasília, 19 horas&#8221;, publicou no Estadão um artigo sobre a discussão em torno da obrigatoriedade do diploma de jornalista, sob a análise do Supremo Tribunal Federal e alvo de protestos da categoria. 
Escreve Bucci:  &#8220;(&#8230;) sobre exigência do diploma, é bom que se [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=107&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, acadêmico e autor do livro &#8220;Em Brasília, 19 horas&#8221;, publicou no <em>Estadão</em> um artigo sobre a discussão em torno da obrigatoriedade do diploma de jornalista, sob a análise do Supremo Tribunal Federal e alvo de protestos da categoria. </p>
<p>Escreve Bucci:  &#8220;(&#8230;) sobre exigência do diploma, é bom que se saiba que, na prática, ela ajudou a elevar o padrão da profissão no Brasil. Pesa contra ela, no entanto, o fato de ter sido imposta pela ditadura militar (o decreto-lei é de 1969) e, agora, surge com força essa alegação de que ela agride princípios constitucionais, dúvida que só pode ser dirimida pelo Supremo&#8221;. </p>
<p>Segundo o jornalista, não é nessa formalidade &#8220;abraçada por interesses corporativos&#8221;, que se encontra o âmago do debate. &#8220;O que deve falar mais alto, nessa matéria, não é a defesa sindical de uma categoria, mas o direito à informação, de que todo cidadão é titular. Essa é a pedra de toque&#8221;, aponta. &#8220;O que se deve buscar não é o conforto dos que hoje estão empregados, mas o melhor sistema para assegurar qualidade à mediação do debate público&#8221;.</p>
<p>Vale a leitura deste artigo, cuja íntegra está publicada abaixo.</p>
<p><span id="more-107"></span></p>
<blockquote>
<h3>Jornalistas e sua formação</h3>
<p><strong>Eugênio Bucci</strong></p>
<p>Na quarta-feira da semana passada houve um ato público na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Está no site do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo: &#8220;Mais de duzentas pessoas, entre dirigentes sindicais, profissionais, professores e estudantes de jornalismo de todo o País, participaram hoje (17/9), em Brasília, de um ato público em defesa da formação específica em jornalismo e da regulamentação profissional da categoria.&#8221; Segundo a nota, a intenção dos manifestantes foi &#8220;sensibilizar os ministros (do Supremo Tribunal Federal) que devem julgar, ainda este ano, o recurso extraordinário (RE/511961), ação que questiona a constitucionalidade da legislação que regulamenta a profissão no Brasil&#8221;.</p>
<p>Embora a imprensa fale pouco do tema, é grande a expectativa em torno do julgamento. Trata-se de saber se a exigência do diploma de jornalista para os que trabalham na imprensa impõe ou não uma barreira ao direito de livre expressão, assegurado na Constituição. Por que só diplomados em Jornalismo podem ser empregados em jornais? Quanto a isso, o País espera a decisão do Supremo Tribunal Federal.</p>
<p>Mas o debate não fica só aí. Há outras frentes em que os destinos da profissão de jornalista estão em jogo. Citemos duas. No âmbito do Ministério do Trabalho, um grupo de trabalho pretende redigir um projeto para a regulamentação da atividade. A segunda frente está no Ministério da Educação.</p>
<p>Recentemente, o ministro Fernando Haddad lançou a idéia de constituir uma comissão para discutir as diretrizes da formação dos cursos de Jornalismo, identificando e delimitando com maior clareza os conhecimentos práticos e teóricos que precisam ser dominados pelos que concluem a graduação. A partir daí, o ministro espera abrir uma nova possibilidade para a formação de jornalistas, sem prejuízo dos cursos que já existem: &#8220;A comissão fará uma análise das perspectivas de graduados em outras áreas, mediante formação complementar, poderem fazer jus ao diploma&#8221; (Folha de S.Paulo, 17/9/2008).</p>
<p>Desde logo, fica bem claro que essa discussão não se confunde com a outra, sobre exigência &#8211; ou não &#8211; de diploma para que alguém seja empregado na área, o que é assunto para o Ministério do Trabalho. Ela cuida especificamente das diretrizes da formação. Sua pauta é educacional, não trabalhista. Seu objetivo é estudar a possibilidade de que gente como cientistas sociais ou economistas, por exemplo, possa, por meio de um curso mais breve, algo em torno de dois anos, habilitar-se a ter um emprego regular em veículos de informação. A iniciativa, como se vê, não ameaça nem reforça a exigência do diploma.</p>
<p>Ainda sobre exigência do diploma, é bom que se saiba que, na prática, ela ajudou a elevar o padrão da profissão no Brasil. Pesa contra ela, no entanto, o fato de ter sido imposta pela ditadura militar (o decreto-lei é de 1969) e, agora, surge com força essa alegação de que ela agride princípios constitucionais, dúvida que só pode ser dirimida pelo Supremo. De todo modo, não é aí, nessa formalidade abraçada por interesses corporativos, que se encontra o âmago do debate. O que deve falar mais alto, nessa matéria, não é a defesa sindical de uma categoria, mas o direito à informação, de que todo cidadão é titular. Essa é a pedra de toque. O que se deve buscar não é o conforto dos que hoje estão empregados, mas o melhor sistema para assegurar qualidade à mediação do debate público.</p>
<p>Por isso é que se pode afirmar: o ponto dramático repousa sobre a qualidade das faculdades. Onde elas são boas, seus formandos têm lugar no mercado. Mesmo em países que não dispõem de nenhuma obrigatoriedade de diploma, como os Estados Unidos, a Alemanha, a França e outros, nota-se a preferência dos empregadores por jovens que tenham cursado uma boa escola de Jornalismo. Aí, as faculdades adquiriram autoridade não em função de uma reserva de mercado, mas pela capacitação que são capazes de aportar aos estudantes. E no Brasil? O que seria das faculdades se elas não estivessem protegidas pela reserva de mercado? Elas sobreviveriam como estão? Ou seriam forçadas dramaticamente a se aperfeiçoar? Se seriam obrigadas a se aperfeiçoar, por que não cuidar disso desde já?</p>
<p>Que ninguém se iluda: boas faculdades são fundamentais. Elas não são dispensáveis, como alguns ainda tentam fazer crer. A presunção de que o jornalismo é um &#8220;ofício que se aprende na prática&#8221; é tão ingênua quanto despreparada. Contra isso se levantou, desde o final do século 19, Joseph Pulitzer. De magnata da mídia americana, ele se projetou como o principal inspirador do Curso de Jornalismo da Universidade de Colúmbia, que só começaria a funcionar em 1912, um ano após a sua morte. Contra o comodismo de seus contemporâneos, que viam na criação da escola uma perda de tempo, Pulitzer afirmava que era necessário transformar aquilo que não passava de um ofício numa profissão nobre. E acertou. Seu texto em defesa da escola de Colúmbia, lançado em 1904, resiste como um pequeno clássico (The School of Journalism, Seattle: Inkling Books, 2006). Deveria ser lido pelos adeptos da tese de que &#8220;jornalismo se aprende na prática&#8221;.</p>
<p>Qualquer um de nós, quando vai ao médico, ao advogado ou ao dentista, procura profissionais com bons currículos acadêmicos e científicos. Mas, quando se trata de servir informação ao público, imaginamos que um prático, sem formação, pode dar conta do recado. Não pode &#8211; ou não pode mais, a não ser excepcionalmente. A porta para o futuro, também nesse caso, está na qualificação dos profissionais. Com diploma ou sem diploma, é da qualificação que dependerá a consistência e a fecundidade do nosso debate público. </p></blockquote>
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		<title>Blogs, &#8220;blogs&#8221; e blogueiros, a tábua rasa do cyberespaço</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2008 17:59:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Blogsfera]]></category>
		<category><![CDATA[Discussão]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Martins Costa]]></category>
		<category><![CDATA[Observatório da Imprensa]]></category>

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		<description><![CDATA[Na arena de idéias que circulam no cyberespaço, há cada vez mais lugares para que obtusos e reacionários ocupem trincheiras na blogosfera a fim de destilar suas posições mais atrasadas e conservadoras, limando oportunidades para a troca de idéias, num ambiente civilizado e de respeito mútuo. Basta apenas abrir fogo contra &#8220;os petralhas&#8221;, &#8220;esquerdopatas&#8221; e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=105&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Na arena de idéias que circulam no cyberespaço, há cada vez mais lugares para que obtusos e reacionários ocupem trincheiras na blogosfera a fim de destilar suas posições mais atrasadas e conservadoras, limando oportunidades para a troca de idéias, num ambiente civilizado e de respeito mútuo. Basta apenas abrir fogo contra &#8220;os petralhas&#8221;, &#8220;esquerdopatas&#8221; e quetais para se posicionar como um &#8220;intelectual&#8221;. </p>
<p>No Brasil, há algum tempo, ninguém tinha coragem de se assumir como um reacionário. Agora, não. Há os que se orgulham e se ufanam de detonar todos aqueles que têm coragem de discutir os males sociais do país, mostrar as contradições das políticas públicas, retratar as distorções no sistema de distribuição de renda e outras coisas. Nas trincheiras do esgoto, qualquer olhar que humanize a notícia, mostre a vida e todas as suas contradições, é visto como uma &#8220;deturpação marxista&#8221; (sic). </p>
<p>Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa, aborda este problema em um artigo publicado nesta terça-feira no site do OI. Segue o texto para quem quiser ler.</p>
<blockquote><h4>SIMPLIFICAÇÃO, SIMPLIFICAÇÕES</h4>
<h3>Uma boquinha para os &#8220;idiossincráticos&#8221;</h3>
<p>Por Luciano Martins Costa em 2/9/2008<br />
Do Observatório da Imprensa</p>
<p>Uma das táticas mais eficazes para se conseguir espaço na imprensa brasileira, e quem sabe até mesmo uma boquinha de colaborador permanente, com direito ao seu próprio blog, é fazer a encenação da idiossincrasia. Mas, embora possa parecer fácil, é tarefa para pessoas talentosas.</p>
<p>Primeiro, e basicamente, é preciso vocação e tirocínio para identificar onde o conservadorismo e a arrogância da imprensa podem ser lustrados a ponto de fazê-la parecer moderna. Pós-moderna, como se dizia na década passada. Contemporânea, como se diz hoje.</p>
<p><span id="more-105"></span></p>
<p>Segundo, mas não menos importante, é necessário saber escrever. Não de uma forma elegante, não obrigatoriamente alinhada à linguagem culta, nem é preciso ter um estilo original. Aliás, esse nicho do mercado jornalístico se abre preferencialmente para escrevinhadores raivosos, ruidosos, figadais, irados, capazes de sufocar o leitor com adjetivos e afirmações de opinião tão densas que não lhe permitam pensar fora da matriz proposta. O articulista ou comentarista &#8220;idiossincrático&#8221;, na medida certa, para ser bem-sucedido precisa ser um pouco rocky, mas não pode ser punk. Tem que saber lidar com a linguagem chula, na medida exata.</p>
<p>A terceira qualidade, talvez a mais importante delas, é a capacidade de ignorar as melhores medidas da honestidade intelectual. A construção de raciocínios que, ao invés de estimular a reflexão do leitor, o constrangem a abreviar a formatação do entendimento, buscando os atalhos da simplificação em meio à complexidade dos temas, e ao mesmo tempo dar a impressão de profundidade, esse o grande segredo do sucesso.</p>
<p>Mas há, por cima de todas essa qualificações, aquela que transcende, aquela sem a qual não bastam o texto adequado nem a criteriosa abdicação do rigor intelectual que deveria ser a essência do jornalismo de opinião. Trata-se da sensibilidade para demonizar toda e qualquer expressão de humanismo que se apresente ao espaço do debate público. Desde a questão indígena, passando pelo problema do aquecimento global, atravessando o tema das carências sociais, cruzando o território dos conflitos agrários e especialmente no amplo e diversificado campo dos direitos humanos, têm maiores chances de triunfar e conquistar um espaço nobre na mídia aqueles que são capazes de empurrar toda essa temática para debaixo dos tapetes. De preferência, carimbando toda e qualquer reflexão a esse respeito como herança anacrônica de ideologias superadas.</p>
<p><strong>Afirmações desmentidas</strong></p>
<p>O fenômeno não se restringe à imprensa nacional, mas encontra aqui terreno fértil para prosperar, graças à eliminação quase absoluta do pensamento divergente nas redações dos principais títulos. Da mesma forma, pode ser observado na imprensa latino-americana em geral, toda ela formatada na mesma matriz conservadora, e se revela em muitos títulos tradicionais da imprensa reconhecida como padrão do melhor jornalismo internacional. Está na moda ser conservador, e os rebeldes de hoje, finalmente realizados como rebeldes sem causa, têm na verdade como última causa a morte da inteligência.</p>
<p>Há toda uma diversidade de assuntos rotineiramente abordados por esses autores, mas sua preferência quase sempre recai sobre temas complexos relacionados a problemas de difícil solução, como as questões da pobreza, das dívidas sociais com relação às populações indígenas, da gestão territorial e agricultura – com as extensões do biocombustível e da segurança alimentar, dos direitos fundamentais mal resolvidos, dos novos conceitos de soberania, do papel do Estado, da responsabilidade social das empresas.</p>
<p>Ultimamente, uma chusma desses pensadores de oportunidade tem se dedicado a tentar desmoralizar um dos mais intensos esforços da comunidade científica internacional: o relatório sobre mudanças climáticas elaborado com a colaboração de milhares de especialistas e divulgado em fevereiro de 2007 sob patrocínio da ONU.</p>
<p>Uma das fontes mais recorrentes desses especialistas de última hora, entre os quais se alinham verdadeiros cientistas, é o ex-banqueiro britânico &#8220;lord&#8221; Nigel Lawson, que foi ministro de Finanças e da Energia no governo de Margareth Thatcher e diretor da revista The Spectator. O livro de Lawson, intitulado Um Apelo à Razão: Um Olhar Frio sobre o Aquecimento Global, alinha uma série de argumentos tentando desmontar a urgência de medidas contra as mudanças climáticas, majoritariamente baseados em uma sucessão de artigos publicados na imprensa, depois da divulgação do relatório do IPCC, por cientistas de várias especialidades, alguns deles declaradamente financiados pela indústria petroleira.</p>
<p>Entre os equívocos cometidos pelo autor, que os articulistas &#8220;idiossincráticos&#8221; ignoram convenientemente, está o descuido de reproduzir citações da imprensa devidamente desmentidos ou desmoralizados, como a afirmação de que a produção de biocombustíveis aumenta inevitavelmente as pressões sobre as áreas de agricultura destinadas à produção de alimentos e estimula a degradação do patrimônio ambiental. Ou que os projetos de biocombustíveis eram a causa da inflação de alimentos.</p>
<p>Dois meses depois de lançado seu livro, The Spectator publicava reportagem na qual, citando o Banco Mundial, desmentia as duas afirmações. E uma das principais omissões de sua obra se refere ao fato de que o catastrofismo em torno do aquecimento global foi produzido pela imprensa, não pelos cientistas.</p>
<p><strong>Evitar o debate</strong></p>
<p>Certamente há muito material para debates nas milhares de páginas que fundamentam o relatório do IPCC. Também se pode questionar, igualmente, aspectos pontuais das projeções científicas ali contidas, como o potencial exato de elevação do nível dos mares nos próximos 50 anos, mesmo porque quase tudo naqueles estudos é construído sobre modelos matemáticos que consideram variáveis muito dinâmicas.</p>
<p>Mas a afobação com que certos articulistas &#8220;idiossincráticos&#8221; adotam qualquer afirmação que contradiga o documento revela o vício de origem de seus pensamentos: para muitos desses escrevinhadores, o movimento ambientalista se transformou no último refúgio dos antigos marxistas. Portanto, tudo que vier do movimento ambientalista, e suas vertentes direcionadas à questão da responsabilidade social das empresas, deve ser condenado como mais uma utopia esquerdista.</p>
<p>Quem conhece a militância ambientalista na origem e sua vertente contemporânea, o movimento pela sustentabilidade, sabe que suas raízes estão fincadas em empresas bem situadas no mercado global, cujos gestores e acionistas percebem a importância de agregar novos indicadores às suas métricas de resultados. Ao contrário do que afirmam os &#8220;idiossincráticos&#8221;, a esquerda tradicional sempre se opôs ao movimento ambientalista. No Brasil, seminários promovidos nos últimos anos pelo portal Gestão Sindical demonstram que os líderes das centrais sindicais, muitos deles egressos do Partido Comunista, vinculados ao PT e à militância trabalhista, sempre se opuseram a misturar a questão ambiental às suas pautas de negociações.</p>
<p>O vício de atacar todas as virtudes que cercam a busca de bons resultados sociais e ambientais paralelamente aos lucros nos empreendimentos nasce provavelmente do desconforto que produz no pensamento conservador a evidência de que a globalização gera oportunidades, mas também traz uma nova noção de risco. Ou as evidências de que o capitalismo não tem sido capaz de produzir sociedades mais justas. A hipótese de que novos paradigmas econômicos venham a impor mudanças na visão de mundo bipartite deve assustar certos intelectos condicionados a enxergar o mundo em preto-e-branco.</p>
<p>Eles não querem mudanças. Eles lutam para evitar que o debate se torne mais complexo. Afinal, é das simplificações que fazem seus palanques. Essa é a plataforma que precisam defender para garantir suas boquinhas na imprensa.</p></blockquote>
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		<title>Sodré aborda a necessidade do diploma de jornalismo</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Aug 2008 17:23:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Debate]]></category>
		<category><![CDATA[Diploma]]></category>
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		<description><![CDATA[Professor de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré abordou, no Observatório da Imprensa, um dos grandes embates atuais que está ocorrendo na imprensa brasileira. Trata-se da necessidade do diploma para o exercício da profissão, cuja luta vem sendo empreendida pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Sodré também sai em defesa do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=98&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Professor de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré abordou, no <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=497DAC002" target="_blank">Observatório da Imprensa</a>, um dos grandes embates atuais que está ocorrendo na imprensa brasileira. Trata-se da necessidade do diploma para o exercício da profissão, cuja luta vem sendo empreendida pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Sodré também sai em defesa do diploma, argumentando que a exigência é uma necessidade para a própria sobrevivência da democracia e da sociedade. &#8220;Informação não é mero produto, nem serviço: é o próprio solo da sociedade em que vivemos, é o campo onde joga o cidadão. Se a garantia dessa formação adequada se espelha hoje no diploma, viva o diploma&#8221;, escreve. Abaixo, a íntegra do artigo. </p>
<blockquote><p>DIPLOMA DE JORNALISMO<br />
A necessidade da formação universitária</p>
<p>Muniz Sodré<br />
No Observatório da Imprensa, em 5 de agosto de 2008</p>
<p>Em fevereiro de 2007, a Newspaper Association of America anunciou, durante sua convenção anual em Las Vegas, o lançamento de uma campanha nacional para incutir no público leitor a idéia de que o jornal do futuro será uma &#8220;multiplataforma de informação&#8221;, o que implica, na prática, a junção empresarial e cultural do papel com a web. Daí, slogans do tipo &#8220;a internet é a melhor coisa que poderia acontecer aos jornais&#8221;.</p>
<p>Mas será essa também a melhor coisa que poderia acontecer aos jornalistas?</p>
<p>Esta questão tem alguma pertinência para o atual debate sobre a exigência de diploma universitário.</p>
<p><span id="more-98"></span></p>
<p>Em princípio, é preciso debater a hipótese de que essa nova face da informação pública possa pôr em crise a própria identidade do jornalismo clássico como mediação discursiva e como funcionalidade específica de um grupo profissional. Disto, um claro sintoma é a questão levantada por um arauto da chamada cibercultura: &#8220;Seria ainda necessário, para se manter atualizado, recorrer a esses especialistas da redução ao menor denominador comum que são os jornalistas clássicos?&#8221;</p>
<p><strong>Cidadania e humanismo</strong></p>
<p>A resposta, de certo modo, começa a ser dada pelos grandes conglomerados do jornalismo impresso, por meio da progressiva conversão empresarial do papel à eletrônica. Nada impede que o jornalismo troque de suporte preferencial, uma vez que os conteúdos informativos, na medida da independência de sua forma técnica, podem passar de um suporte para outro sem alterar substancialmente a sua natureza. A despeito do potencial midiático da internet, a digitalização em si mesma não é um medium, e sim um processo técnico (informático).</p>
<p>Veja-se o livro: mesmo digitalizado, continua a ser &#8220;livro&#8221;, isto é, a organizar seqüencialmente os conteúdos de acordo com a milenar forma códice (codex), embora ainda sejam grandes as dificuldades de leitura de textos extensos na tela do computador. Daí, as hibridizações formais, já praticadas por alguns jornais, entre a escrita tradicional e a escrita para a tela do computador, oferecendo ao público a opção de leitura de jornal entre resumos e textos maiores.</p>
<p>Ainda o livro: também não se pode passar por cima da evidência de que, em nossa modernidade, a forma códice (escrita unidirecional, páginas organizadas em cadernos e costuradas), depois chamada livro, impôs-se aos usos e aos espíritos como locus do conhecimento centrado, da leitura que constitui pastoralmente a cidadania, da produção do sentido e do real medidos pela escala do humanismo.</p>
<p><strong>Nem produto, nem serviço</strong></p>
<p>O mesmo se dá com o jornal. Pode trocar de suporte técnico, pode mesmo existir na complementação dos suportes (papel e eletrônica), mas continua impelido, como forma moderna e democrática da comunicação, pela ideologia humanista que garante a cidadania. Eventuais descaminhos não podem elidir a evidência de que a imprensa brasileira, por exemplo, jamais deixou, em seus 200 anos de existência, de estar presente, como parte essencial, nas causas que ajudaram a dar à nação a sua face atual – a abolição da escravatura (de cuja campanha participou a maioria dos jornais provinciais) e a criação da República. O jornalismo, no Brasil e no resto do mundo, reflete as questões públicas decisivas para os rumos da nação.</p>
<p>Como conceber hoje o funcionamento dessa instituição &#8220;quase-pública&#8221;, geradora da informação necessária ao cidadão para o pleno funcionamento da democracia, sem uma formação universitária, especializada, de jornalistas? Informação não é mero produto, nem serviço: é o próprio solo da sociedade em que vivemos, é o campo onde joga o cidadão. Se a garantia dessa formação adequada se espelha hoje no diploma, viva o diploma.
 </p></blockquote>
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		<title>Maria Inês Nassif: Notícia e os operários da notícia</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Jul 2008 15:17:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Cobertura]]></category>
		<category><![CDATA[Cobertura da imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Daniel Dantas]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Inês Nassif]]></category>
		<category><![CDATA[Protógenes Queiroz]]></category>
		<category><![CDATA[Satiagraha]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais um artigo pertinente da jornalista Maria Inês Nassif, editora de Opinião do jornal Valor Econômico sobre os novos tempos em que vivemos, em que notícia tem um valor que transcende seu papel informativo no mundo corporativo e de negócios, ganhando peso para especulações de toda sorte, inclusive financeira.
Escreve Maria Inês: &#8220;A informação hoje é [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=96&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Mais um artigo pertinente da jornalista Maria Inês Nassif, editora de Opinião do jornal <em>Valor Econômico</em> sobre os novos tempos em que vivemos, em que notícia tem um valor que transcende seu papel informativo no mundo corporativo e de negócios, ganhando peso para especulações de toda sorte, inclusive financeira.</p>
<p>Escreve Maria Inês: &#8220;A informação hoje é um dado de qualquer movimento especulativo &#8211; as mesas de operação precisam da informação assim como do dinheiro para especular. Simultaneamente, os meios de comunicação, enquanto investiam numa rápida transformação tecnológica, fizeram do jornalista um &#8216;apertador de parafusos&#8217;.</p>
<p>Abaixo, a íntegra do artigo, publicado na edição de hoje do <em>Valor</em>:</p>
<blockquote>
<h3>De boas intenções o inferno está cheio</h3>
<p><strong>Maria Inês Nassif</strong></p>
<p>Para quem opera diariamente na linha de produção dos meios de comunicação, é cada vez mais complicado entender o alcance da informação, isto é, a função que ela exerce num mundo globalizado, onde invade todas as áreas do conhecimento, é parte do processo de acumulação e, ao mesmo tempo e contraditoriamente, é cada vez mais compartimentada. De qualquer forma, no processo de produção de informação, o que é menos relevante é a intenção daquele que produz a notícia. O que importa é a função que ele exerce naquele momento. E aí, de boas intenções o inferno está cheio.</p>
<p><span id="more-96"></span></p>
<p>A profissão de jornalista sofreu significativa mudança na última década. Após o Plano Real, quando o país entrou definitivamente na órbita do capital globalizado, a produção informativa deixou de funcionar apenas como formuladora de consensos e passou a ser parte integrante do processo de acumulação financeira. A informação hoje é um dado de qualquer movimento especulativo &#8211; as mesas de operação precisam da informação assim como do dinheiro para especular. Simultaneamente, os meios de comunicação, enquanto investiam numa rápida transformação tecnológica, fizeram do jornalista um &#8220;apertador de parafusos&#8221;. Em &#8220;Os jornais, a democracia e a ditadura do mercado&#8221; (clique <a href="www.sapientia.pucsp.br//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=4320" target="_blank">aqui</a>), defini esse período como a &#8220;era taylorista da informação&#8221;, onde os &#8220;operários da notícia são obrigados a ajustar a sua produção a uma esteira que adquire cada vez mais velocidade, impulsionada por investimentos em tecnologia &#8211; e, na outra ponta, por sucessivos processos de reestruturação de material humano&#8221;.</p>
<p>&#8220;Talvez essa nova fase do processo produtiva da informação tenha sido mais efetiva em termos de controle de conteúdo&#8221;, e sem dúvida proporcionou condições pouco propícias à reflexão. Mas a informação, em qualquer hipótese, é uma elaboração intelectual que chega ao público como mercadoria &#8211; e essa mercadoria é parte de um todo orgânico, o veículo de comunicação, que atua na mediação entre o Estado e a sociedade civil.</p>
<p>O ator envolvido na elaboração da notícia é parte de um processo de amoldamento da opinião pública. O pensador italiano Antonio Gramsci entendia que a &#8220;imprensa marrom&#8221; e o rádio (esse veículo era a <em>mass media</em> no entre-guerras) eram os principais instrumentos para a consolidação de sensos comuns que poderiam forjar verdades favoráveis a uma das partes de uma disputa pela hegemonia. Uma das formas de se obter isso, ainda segundo Gramsci, era forjando &#8220;explosões de pânico ou entusiasmo fictícios&#8221;. Isto é, provocando uma &#8220;predominância emotiva&#8221; e, com base numa onda emocional, forjando entendimento que passa a ser um consenso, uma opinião pública dominante, sem, contudo, ser necessariamente verdade &#8211; ou ser necessariamente importante. Apesar de Gramsci ter elaborado as suas teorias na primeira metade do século passado, e na Itália, a conjuntura recente do Brasil está cheia de exemplos de como as &#8220;explosões&#8221; interferem nos movimentos de opinião pública. E a imprensa que mediou essas pressões não pode ser considerada &#8220;marrom&#8221;.</p>
<p><strong>Explosões de pânico são formas de pressão</strong></p>
<p>Um exemplo quase caricato é o das eleições de 1989, quando a campanha do candidato do PRN à Presidência, Fernando Collor, fez crer, e os meios de comunicação trataram como uma verdade ao reproduzir essa afirmação acriticamente, que Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato do PT que disputava com ele o segundo turno das eleições, desapropriaria apartamentos grandes e neles abrigaria várias famílias; ou que o fato de ter um som &#8220;três em um&#8221; era um luxo que certamente era produto de corrupção (embora Lula jamais tivesse ocupado um cargo público); ou que o fato de ter tido uma filha fora do casamento o tornava como ameaça à família. Foi o caso também das eleições de 2002, quando os jornais reproduziram acriticamente &#8220;razões&#8221; de mercado para movimentos especulativos que quase quebraram o país e contribuíram para que o candidato petista, mesmo antes de ser eleito, jogar o seu programa econômico na lata do lixo &#8211; uma situação meio maluca onde o candidato que nunca tinha ocupado o governo federal foi responsabilizado sistematicamente por uma crise financeira que decorria de forte movimento especulativo, ampliado por uma fragilidade externa que era dada pelo endividamento do país.</p>
<p>Um leitor deixou recado em dois blogs, pedindo explicações sobre o fato de eu ter afirmado, na <a href="http://olicruz.wordpress.com/2008/07/24/maria-ines-nassif-dantas-e-o-acusado/" target="_blank">coluna da semana passada</a>, que o governo, ao afastar o delegado Protógenes Queiroz, da PF, das investigações sobre o esquema Dantas, respondia a uma pressão mediada pela imprensa. Essa coluna imensa é uma tentativa de responder à sua pergunta. Existem sutilezas na veiculação de notícias que funcionam &#8211; têm a função, embora não necessariamente a intenção &#8211; como instrumentos de pressão. As &#8220;explosões de pânico ou entusiasmo&#8221; são instrumentos eficientíssimos de pressão. Essas &#8220;explosões&#8221; são a formulação teórica do que se aponta como &#8220;sensacionalização&#8221; da notícia, do fato. O sensacional não é sutil, mas há uma sutileza na forma como se procede à pressão dos agentes políticos pela sensacionalização da notícia &#8211; não necessariamente o noticiarista emite um juízo de valor, mas quando torna escandaloso o que não é necessariamente escandaloso, ou retrata como anormal um fato que não é necessariamente anormal, ele embute um juízo de valor numa notícia que é tecnicamente dada como neutra. Quando a essa forma de tratamento da notícia se adicionam páginas editoriais, a uma informação &#8220;neutra&#8221;, que teoricamente é o retrato da realidade, somam-se opiniões definidas como a &#8220;racionalidade&#8221;, visto que baseadas na &#8220;fotografia&#8221; do fato. A expressão da &#8220;verdade&#8221; e da &#8220;realidade&#8221;, nesses termos, não é necessariamente verídico, nem real, nem destituído de intenção política.</p>
<p>Do ponto de vista do profissional da imprensa &#8211; aquele a quem se ensina, na escola de jornalismo, que a informação tem que ser neutra &#8211; existe uma confusão que tem sido a propulsora de &#8220;explosões&#8221; sucessivas: o conceito do &#8220;furo&#8221;. A informação exclusiva é importante para diferenciar os veículos de comunicação, mas ela jamais pode ser a informação pela metade. Afinal, informação hoje vale dinheiro e poder &#8211; e não necessariamente ela enche o bolso de quem fez jus ao dinheiro, ou dá poder a quem deveria ter acesso legítimo a ele. Talvez seja a hora de refletir seriamente sobre isso.</p></blockquote>
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		<title>Mulder &amp; Scully</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Jul 2008 14:04:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Olímpio Cruz Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Arquivo X]]></category>
		<category><![CDATA[Catatonia]]></category>
		<category><![CDATA[Mulder & Scully]]></category>
		<category><![CDATA[X Files]]></category>

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Ainda não assisti ao filme &#8220;Arquivo X &#8211; Eu quero acreditar&#8221;, que está nos cinemas. Sou um grande fã da série, que tinha como protagonistas Mulder e Scully, os agentes do FBI que investigam casos bizarros, abduções, ETs e que lutavam contra a conspiração governamental de ocultação da &#8220;verdade&#8221;. Pela crítica publicada nesta sexta-feira na [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ambulatoriodefocas.wordpress.com&blog=4035426&post=94&subd=ambulatoriodefocas&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://ambulatoriodefocas.wordpress.com/2008/07/25/mulder-scully/"><img src="http://img.youtube.com/vi/036dOiSX9vA/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p>Ainda não assisti ao filme &#8220;Arquivo X &#8211; Eu quero acreditar&#8221;, que está nos cinemas. Sou um grande fã da série, que tinha como protagonistas Mulder e Scully, os agentes do FBI que investigam casos bizarros, abduções, ETs e que lutavam contra a conspiração governamental de ocultação da &#8220;verdade&#8221;. Pela crítica publicada nesta sexta-feira na <em>Folha</em> (mais abaixo), o filme é uma bomba. A conferir. </p>
<p>Acima, o vídeo promocional da música &#8220;Mulder &amp; Scully&#8221; do grupo inglês Catatonia, um dos expoentes do Britpop, sucesso nos velhos pubs londrinos. A música é um clássico, embora pouco conhecida no Brasil, e integra o disco &#8220;International Velvet&#8221;, cujas vendas ultrapassaram a marca dos 900 mil discos vendidos no agora longínquo ano de 1998.</p>
<p>Abaixo, a crítica da Folha.</p>
<p><span id="more-94"></span></p>
<blockquote><h3>Por que o novo filme é tão ruim?</h3>
<p>Marco Aurélio Canônico<br />
Da reportagem local</p>
<p>Como bem sabem os fãs, em &#8220;Arquivo X&#8221;, a série, a verdade está lá fora. O mundo é um lugar misterioso, o governo dos EUA guarda boa parte desses mistérios, e a dupla de agentes do FBI Mulder e Scully trava uma luta inglória, de dentro do sistema, para chegar às respostas dos enigmas.</p>
<p>Já em &#8220;Arquivo X &#8211; Eu Quero Acreditar&#8221;, o filme, que estréia hoje, a verdade está lá dentro, no interior dos personagens -traumatizados, estigmatizados, derrotados, mas ainda com algum fiapo de fé. E todos, inclusive o espectador, saem perdendo com a mudança de foco.</p>
<p>As duas forças que moviam o seriado desapareceram no novo filme. Primeiro, o clima de conspiração e paranóia, de que o governo sabe e esconde (cometendo crimes, para isso), de que a dupla de agentes é uma pequena força contra um sistema muito maior do que eles conseguem vislumbrar.</p>
<p>Em segundo lugar, a tensão (sexual, inclusive) entre Mulder e Scully também sumiu.<br />
Eles ainda são personalidades diferentes, mas seus conflitos são outros, assim como seu relacionamento -não há mais o suspense &#8220;será que eles se beijam?&#8221;; eles já dormem juntos.</p>
<p>Os fãs vão se empolgar com o bom início do filme, que remete ao que a série tinha de melhor, mas o ritmo cai rapidamente à medida que a trama, sem pé nem cabeça, se desenvolve. No fim, a sensação é de decepção, de &#8220;o que fizeram com os personagens que eu amava?&#8221;.</p>
<p>Quem nunca assistiu à série está em situação ainda pior, apesar de o diretor Chris Carter e de o elenco explicarem enfaticamente que o filme é voltado para um público novo. Isso é bobagem. Quem não conhece a mitologia do seriado vai boiar no filme, porque ele retoma os personagens do mesmo ponto em que estavam. Diversos episódios cruciais para entender a psique de Mulder e Scully (como a história do filho do casal e a abdução da irmã de Mulder) são explicados em uma linha de diálogo. Adeus, profundidade.</p>
<p>O novo longa não faz jus nem à série, nem ao primeiro filme, de 1998. Você não vai acreditar.</p>
<p>ARQUIVO X &#8211; EU QUERO ACREDITAR<br />
Produção: EUA, 2008<br />
Direção: Chris Carter<br />
Com: David Duchovny, Gillian Anderson, Billy Connolly<br />
Onde: estréia hoje nos cines SP Market, Shopping D e circuito<br />
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 12 anos<br />
Avaliação: ruim
  </p></blockquote>
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